22 de fev de 2007

Deus é fraco?!?

"Assim como Deus, que se 'esvaziou de sua divindade', como escreve Simone Weil, e é o que torna o mundo possível e a fé suportável. 'O verdadeiro Deus é o Deus concebido como não comandando em toda parte onde tenha o poder de fazê-lo. É o amor verdadeiro, ou antes, (pois os outros também são verdadeiros), o que há de divino, às vezes, no amor. O amor consente tudo e só comanda os que consentem em ser comandados. O amor é abdicação. Deus é abdicação. O amor é fraco: Deus é fraco, embora onipotente, pois é amor... Cumpre dizer que Deus é fraco e pequeno, e sem cessar moribundo entre dois ladrões pela vontade da mais insignificante polícia. Sempre perseguido, esbofeteado, humilhado; sempre vencido; sempre renascendo no terceiro dia. Daí o que Alain chamava de jansenismo, o qual explicava ele, 'se refugia num Deus oculto, de puro amor, ou de pura generosidade, como dizia Descartes; num Deus que só tem a dar espírito, num Deus absolutamente fraco e absolutamente proscrito, e que não serve, mas que, ao contrário, deve ser servido, e cujo reinado não chegou...' O amor é contrário da força, assim é o espírito de Cristo, assim é o espírito do Calvário: 'se ainda me falam de Deus onipotente, insiste Alain, 'respondo que é um Deus pagão, um Deus superado. O novo Deus é fraco crucificado, humilhado... Não digam que o espírito triunfará, que terá potência e vitória, guardas e prisões, enfim a coroa de ouro. Não... É a coroa de espinhos que ele terá. Essa fraqueza de Deus, ou essa divindade da fraqueza é uma idéia que Spinoza nunca teria tido, ao que tudo indica, que Aristóteles nunca teria tido, e que, no entanto, fala à nossa fragilidade, ao nosso cansaço, e mesmo a essa força em nós parece-me tão leve, tão rara, o pouco de amor verdadeiramente desinteressado de que às vezes somos capazes, ou de que acreditamos ser, ou de que sentimos, pelo menos, a nostalgia ou a exigência."

Ricardo Gondim

2 comentários:

Éverton Vidal disse...

Admiro esse lado que o Godim apresenta a respeito da doaçao de Deus... Da diminuiçao de Deus por amor aos homens.

Belo texto.

Inté.

Bruno Vox disse...

É verdade, se nós pararmos pra pensar um pouco o sentido desse esvaziamento de Deus, muita coisa na igreja poderia ter tomado rumo diferente.

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