6 de mai de 2011

Espiritualidade e Consciência Política

Por Bispo Robinson Cavalcanti (*)

Palestra proferida no Fórum Cristão de Profissionais, na noite do dia 13.09.2010, na Igreja Batista de Água Branca (SP)

01. O século XX nos legou duas concepções inadequadas sobre o ser humano. A primeira foi o totalitarismo: nela não há um valor do ser em si, mas a individualidade é dissolvida no todo abrangente e asfixiante. O todo do Estado, dominado pelo aparelho burocrático do partido único, sem limites, e que tudo pode, eliminando-se, radicalmente, quaisquer diferenças entre a esfera pública e a esfera privada, com a inexistência dos direitos civis e das liberdades públicas. A complexidade humana sucumbia ao devaneio de uma “idade de ouro” ao final do processo. O ser no totalitarismo é um não ser. Uma segunda foi a do individualismo, com uma ideologia de um conceito do ser como indivíduo. O individualismo, com um ser ensimesmado, egocentrado, nos reconduz a um estado de natureza marcado por um “darwinismo social”, pela sobrevivência do mais forte, do mais apto. Individualismo que aliena da natureza, do próximo e de si mesmo, e que conduz ao hedonismo consumista e imediatista, com os outros seres vistos como objetos.

02. O Totalitarismo e o Individualismo não são apenas concepções inadequadas e antiéticas, mas têm como pano de fundo a Modernidade, com uma antropologia otimista, crente no mito da bondade natural dos seres, na negação das ambiguidades, onde o negativo está fora de nós, no outro ou no sistema, no mito do progresso, onde o “homem bom” atingiria uma “terra sem males”, no mito da Razão ou da Ciência, como recursos ilimitados para esse fim, crente nesse “fim da História”, que é o mito das Utopias Globais. O fim da Modernidade tem passado pelo descrédito desses quatro mitos.

03. O ocaso da Modernidade não nos tem livrado da tentação totalitária, inclusive o totalitarismo do individualismo. Esse ocaso trouxe um cansaço do ser, que não encontra respostas nem dentro de si, nem fora de si. Se redescobre, dolorosamente, as limitações, as ambiguidades e a maldade, enquanto buscamos para a vida um significado e um propósito existencial. Uma questão adicional ao Totalitarismo e ao Individualismo é o materialismo. Como humanos somos seres materiais, pois não somos imateriais ou metafísicos, mas a materialidade não esgota a natureza do ser. As diversas expressões de materialismo são simplistas e reducionistas. Os humanismos antropocêntricos não conseguem escapar das amarras limitadoras do materialismo, e esses não respondem às perguntas básicas do ser sobre o ser, nem produzem as condições subjetivas ou objetivas para o que denominamos comumente como “felicidade”.

04. Do século passado não recebemos apenas os legados inadequados do Totalitarismo e do Individualismo. Os humanismos não-antropocêntricos, mas teocêntricos, não materialistas, mas espiritualistas – particularmente na tradição judaico-cristã – procuraram construir uma alternativa para descrever o ser, nem como peça, nem como átomo, mas como pessoa. O conceito de pessoa assume a complexidade do ser, sua multidimensionalidade, suas relações, seus valores. Um ser que é, ontologicamente, igual a todos os seres, mas que é, ao mesmo tempo, cada um, singular, único. A pessoa é alguém que tem consciência do ser em si, mas também do ser para o outro, da sua humanidade, da sua singularidade, das suas potencialidades e possibilidades, das suas limitações, dos seus direitos e deveres, da sua ambiguidade moral, com sua tensão entre o bem e o mal, entre o desejo e a realização, a construção e a destruição, os sentimentos altruístas e solidários e os sentimentos egoístas e destrutivos. A pessoa se percebe como parte e co-responsável pela natureza, pelo todo da criação, e pela necessidade da vida em sociedade, pelo eu-tu: com a Divindade, o outro e o todo, e pelo eu-eu do autoconhecimento sincero e realista.

05. Corpo, mente, alma, sentimentos, relacionamentos, valores, humanidade, uma imanência iluminada pela transcendência, uma vida iluminada pela consciência da morte e esperança da eternidade. Essa herança de correntes filosóficas como o Personalismo, o Solidarismo, do Humanismo Integral, e de correntes psicoterapêuticas como a Terapia Centrada na Pessoa. Pessoa que procura se autoconhecer e conhecer o outro, que alimenta aspirações, sonhos, projetos, que afirma convicções, que se realiza e valoriza as instâncias sociais intermediárias entre ele e o Estado: a família, a vizinhança, a comunidade, o círculo de amigos, o trabalho, o lazer, as instituições religiosas, os movimentos sociais, na diversidade de papéis e na riqueza de relacionamentos. A pessoa se constrói como ser solidário, que sonha com uma sociedade solidária.

06. A complexa e concreta humanidade, portanto, não se move sem uma espiritualidade. Estética e Ética estão além da materialidade. A beleza, os sentimentos, os valores e a fé integram a rica dimensão do espiritual que necessitamos cultivar para sermos mais plenos e mais humanos. O ser humano, transformado pela sociedade urbano-industrial, em um mero homo faber, destinado ao trabalho, ao ganho e ao gasto, percebe o vazio, a alienação de sua condição humana. Redescobre, então, o valor do lazer, o homo ludens, a realização do não-fazer, do apenas ser, percebendo que na narrativa da Criação, Deus, no sétimo dia, “descansou”. Redescoberta do valor do repouso, do silêncio, da meditação, da contemplação, do prazer (inclusive erótico), do olhar estético e nada mais. Redescobre o prazer de pensar em si, a vida, a criação, o outro, a alegria, o amor, o voltar-se para a transcendência, a imaterialidade, a divindade. A pessoa se realiza terapeuticamente. Viver a pessoa como um processo permanente de cura, e como instrumento de cura para o todo da Criação, da qual ele faz parte e a qual ele é responsável.

07. O homo ludens descobre a arte de amar nas ações comunitárias, na alteridade da presença confortadora e apoiadora junto aos que sofrem, nos atos coletivos que almejam a superação de privações e a promoção do bem-comum, no exercício responsável da cidadania, nos órgãos de classe, nos clubes de serviço, nos partidos políticos, crendo na possibilidade de reconstruir o mundo, crescendo a nossa humanidade no crescimento da consciência e na vivência de valores. O mundo do trabalho não deveria ser condicionado pelo mundo do não-trabalho, onde construímos o nosso ser, e emprestamos sentido ao conjunto da existência, inclusive ao mundo do trabalho? A esse projeto de vida abrangente poderíamos denominar de Espiritualidade, e a necessidade de uma Espiritualidade é algo inato ao ser, à condição humana, e nos mutilamos e nos frustramos quando não a exercitamos. Espiritualidade que inclui riso e choro, dor e prazer, vida e morte, limites e superação de limites.

08. A concretude da vida humana complexa é iluminada a partir de uma teleologia, das descobertas de um sentido último, profundo, abrangente, que vai além do material, da rotina, do aqui e do agora que nos aprisionam; que vai além do ter, conhecendo o ser e o seu sentido último. A crise do materialismo foi a crise de um vazio, de uma parcialização, de uma mutilação, de uma incompletude. O lugar do sagrado não é um dado meramente cultural, mas uma necessidade existencial. Por isso os analistas falam hoje de um “reencantamento do mundo”, em uma “volta do sagrado e ao sagrado”. Como profissionais somos antes de tudo seres humanos, fazemos parte de uma humanidade comum. As questões humanas, que pretendemos equacionar e intervir, estabelecer uma interface, são, antes de mais nada, questões humanas. A crise de transição para a pós-modernidade é formada de incertezas e de oportunidades. Nesse momento, o mais prático é uma boa teoria, e o mais concreto é uma Espiritualidade, como algo fundamental para a sanidade. Transcender é preciso.

09. Como pessoas, somos seres em permanente construção. Poderíamos a isso denominar de “espiritualidade como processo”. Crescemos em nossa dimensão cognitiva, na “renovação do nosso entendimento”. Somos peregrinos que necessitam de olhares retrospectivos, introspectivos, circundantes, prospectivos e transcendentes. Isso nos permite uma transformação interior profunda, de dentro e do alto, que denominamos de metanóia, ou conversão, e nos permite sempre um recomeço, Peregrinação que é mistério e aventura, vocação e missão. Os novos tempos, a chamada “pós-modernidade” está chegando de forma confusa, desordenada, contraditória, gerando perplexidade, temor, insegurança. A esses tempos – e a todos os tempos – propomos uma Espiritualidade Integral, que inclui uma prática de Adoração, sem cair no risco do misticismo alienante, uma prática de Reflexão, sem cair no risco da aridez do academicismo, e uma prática de Ação, sem cair no risco do mero ativismo. Conhecer – Discernir – Interceder – Intervir, integram essa Espiritualidade Integral.

10. Essa Espiritualidade Integral nos conduz a intervir na História, e intervir com valores. A Declaração de Jararabacoa, sobre Os Cristãos e a Ação Política, da Fraternidade Teológica Latinoamericana (FTL), nos chama a atenção como princípios fundamentais: o valor da pessoa humana, da verdade, da liberdade, da justiça, da paz, da solidariedade, da democracia, em seus aspectos políticos, econômicos e sociais. E afirma: “É possível, pois, considerar como natural que os homens que habitam um mesmo território possam soberanamente decidir sobre os assuntos que lhes cabem. Desse modo, todos os cidadãos tomam parte do Estado, com consequentes deveres e direitos. O governo é o conjunto das instituições que tornam possível a administração do Estado, exercendo um poder que lhe é delegado pelos cidadãos”.

11. A mesma Declaração relaciona esses princípios com bases teológicas:

1. A ordem política foi provida por Deus como um meio de ordenamento da vida em sociedade,
de tal modo que cada membro desta se realize plenamente em relação com Deus, com a criação, com seus semelhantes e consigo mesmo;

2. A autoridade política foi ordenada por Deus como meio de se preservar a vida em sociedade, mitigando os efeitos do egoísmo e pondo limites à violência social;

3. O Estado guarda relação com o propósito de redenção de Deus, já que tem a tarefa de criar um ambiente de tranquilidade e paz que torne possível a proclamação do Evangelho em palavra e ação;

4. Por sua vez, a expectativa escatológica da Igreja, torna relativo todo sistema econômico e toda forma de governo, pois qualquer sociedade, por muito que supere a que a precedeu, não é a pátria definitiva que os cristãos almejam,é apenas uma pátria temporal, que, no entanto, vem em plenitude com o Reino de Deus.

A Declaração prevê ações dos cristãos como indivíduos, das instituições eclesiásticas locais e nacionais, e de movimento e organizações civis inspiradas pelos valores cristãos, a afirma: “Como discípulos de Cristo, sentimos seu mandato de “ir por todo o mundo e fazer discípulos” contém, além da proclamação e como parte dela, o cumprimento de uma missão de encarnação e serviço. Nosso lugar é no mundo, onde devemos atuar como sal e luz”.

12. As pessoas são chamadas a viver a sua espiritualidade, como agentes de transformação histórica no tempo e no espaço, ou seja, em uma conjuntura. Com o término da Guerra Fria, a conjuntura internacional se assemelha àquela do término das Guerras Púnicas (Roma vs. Cartago), com uma (Des)Ordem Monopolar, em termos geopolíticos e militares, e oligopolar, em termos econômicos. Um determinismo (o Comunismo) foi derrotado por outro determinismo (o “fim da História” Liberal-Capitalista), quando “ideias únicas” tentam aprisionar os seres em uma História fechada. A re-abertura da História, a devolução do direito à esperança, à criatividade, à diferença e aos sonhos é tarefa prioritária para uma Espiritualidade Integral.

13. Há antigos e novos desafios mundiais des-humanizantes para as pessoas como cidadãos, e para os Estados como coletividades:

a) a multiplicidade de conflitos armados
inter e intra-nacionais, os refugiados, a fome, as doenças, em um mundo onde as mercadorias e o capital podem circular; as pessoas não.

b) o recrudescimento do extremismo religioso ameaçam a paz entre as nações e as liberdades públicas dentro das nações.

c) o Secularismo é a ideologia crescente no espaço euro-ocidental, oculto sobre o manto do Laicismo, expulsando as expressões religiosas da esfera pública, reduzindo-as a irrelevância das subjetividades ou ao espaço privado dos templos e dos lares.

d) O Hedonismo (“comamos e bebamos que amanhã morreremos”), individualista e não solidário, como materialismo prático, consumista, imediatista e usufruidor dos prazeres, é a filosofia hegemônica no Ocidente.

e) O Eco-Sistema que vem sendo degradado, ameaçando a terra como lar-comum da humanidade.

14. Ao nível da Pátria terrena, herdamos um país marcado pela exclusão, pelas desigualdades sociais e regionais, pelos privilégios, pela falta de ética, transparência e prestação de contas, em um longo processo cívico de superar os Donos do Poder por um Poder de Todos. Distorções em nosso sistema normativo ainda impedem a consolidação de uma democracia política, econômica e social, que é um alvo a ser perseguido pelos cidadãos responsáveis.

15. O Estado (ente jurídico e político) não existe dissociado da Sociedade (ente sociológico) que o compõe, com suas instituições, movimentos e relacionamentos. O ato jurídico não pode ser estanque ao fato social, e ambos, Estado e Sociedade não estão dissociados da Cultura (ente antropológico) e suas marcas caracterizadores da Nação e da Pátria, seus costumes e seus valores, inclusive aqueles historicamente relacionados à variável religiosa, portadora, essa, tantas vezes, de uma Ética de Revelação. É aqui que fazemos uma diferenciação entre o Laicismo, como separação formal entre Estado e Igreja, mas não como separação material entre Estado, Sociedade e Cultura, onde nos movemos, significativamente, como seres no mundo.

16. Sabemos que, ser político não é uma opção, é uma condição humana dos seres em sociedade, conscientes ou não, responsáveis ou não, na diversidade dos seus talentos, dons e vocações, possibilidades e oportunidades. Sua vivência é cotidiana, e não se resume à instituição partidária ou aos episódios eleitorais, a despeito da grande importância desses. Não se pode reclamar dos maus candidatos quando os bons não se candidatam, nem dos resultados dos pleitos diante da omissão ou da irresponsabilidade dos bons. Nesses momentos, a Nação pode crescer, quando as pessoas, em sua maturidade, em sua espiritualidade engajada, são capazes de crescer com ela. Não temos outra base senão seguir o conselho dos antigos místicos da Igreja: Ora et Labora!

São Paulo (SP), 13 de setembro de 2010.


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* Robinson Cavalcanti, bispo da Diocese do Recife – Comunhão Anglicana, cientista político, escritor e bispo anglicano, ex-assessor da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB), foi membro fundador e integrante da Comissão Executiva da Fraternidade Teológica Latinoamericana (FTL), da Comissão de Convocação e da Comissão de Continuação (LCWE) do Congresso de Lausanne, da Comissão Teológica da Aliança Evangélica Mundial (WEF) e da Comissão Executiva da Fraternidade Evangélica na Comunhão Anglicana (EFAC).

Um comentário:

Diego Batista disse...

Paz querido!!

Passando pra desejar um excelente fim de semana, Deus abençoe vc sempre. abraço

Diego Batista
@diegobatista25
http://conversandocomiave.blogspot.com/

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