3 de jun de 2011

Argumentações de Brejeiro ante ao Ceticismo Aberto

Por Raul Vitor Rodrigues Peixoto

Bem, considerem-se ao redor da fogueira experimentando um guisado de enguias com batatas. A paisagem ao lado é a charneca de Etin ao norte de Nárnia e essa cabana simples pertence ao nosso ilustre personagem: O Brejeiro.
Brejeiro é um personagem do livro “A Cadeira de Prata” de C.S. Lewis, a 6° Crônica de Nárnia. Meu fascínio por esse personagem começou com a primeira leitura que fiz deste livro, logo ele se tornou indiscutivelmente meu personagem favorito de todas as Crônicas. Uma identificação se tornou latente entre a minha personalidade e o peculiar personagem.

As situações que o paulama – nome da espécie a qual Brejeiro pertence – enfrentou durante sua “jornada do herói” eram quase que as mesmas situações que eu tenho de enfrentar em minha “jornada Cristã”. E a maneira como Brejeiro enfrenta essas situações adversas é a mais pessimista (ou realista, como eu prefiro) que se possa imaginar, e por conseqüências o mais cômico possível também.

O ápice desses embates que Brejeiro enfrenta é a discussão final com a Feiticeira Verde. Era incrível a que ponto a genialidade de Lewis poderia chegar, algo que aconteceu comigo por quase todos os dias em que estive na faculdade estava acontecendo alí nas paginas de um livro que “tecnicamente” era para crianças. Obviamente que a questão que era travada por Brejeiro e a Feiticeira Verdade antes de falar a mim, havia martelado na mente do próprio Lewis mais de meio século antes de martelar em minha mente. A questão dizia respeito ao Ceticismo.

Inteiro vocês da questão. O que se passa no momento da história é resumidamente o seguinte: As crianças Jill e Eustaquio estão juntamente com Brejeiro numa jornada em busca de um príncipe a muito perdido. Eles chegam então após muitos perigos a um reino subterrâneo onde os seres lá viventes são monótonos e praticamente não esboçam nenhum traço de alegria. As crianças e o paulama encontram o príncipe e o libertam de um terrível feitiço posto pela rainha daquele mundo, a Feiticeira Verde.
O que é mais interessante de se notar é que o feitiço dessa rainha é mais que algum componente mágico maléfico, seu principio ativo é o Ceticismo.

Mesmo depois de já terem ajudado príncipe Rilian a se libertar da mentira que o cativava na cadeira de prata e de todos saberem de sua maldade e sagacidade a Feiticeira Verde tenta novamente enfeitiçar Rilian e conseqüentemente Jill, Eustaquio e Brejeiro.

Com a ajuda de um pó mágico verde que subia da fogueira que inebriava os presentes no salão e tocando uma musica monótona em um bandolim – que também atrapalhava o raciocínio – a Feiticeira persuade seus alvos de que nada existe além do mundo triste e escuro que ela governa. As tentativas das crianças de dizerem que já estiveram no outro mundo, onde havia sol, florestas e céu azul eram taxativamente rechaçadas pela Feiticeira que acusava as crianças de estarem sonhando acordados, ao mesmo tempo que, dizia que imaginar esse tipo de coisa era para crianças pequenas e que eles já eram “grandinhos” demais para crerem nesse tipo de bobagem.

Quando as crianças citavam o sol, a Feiticeira as acusava de devaneios, pois elas apenas estavam vendo o lustre e imaginando por conseqüência um lustre gigantesco que iluminasse todo o céu, por conseqüência esse lustre não poderia existir pois seria apenas um aumentativo imaginário de um pequeno lustre que realmente existia.

As crianças caíram no feitiço e logo concordavam com a bruxa que na realidade não existia um outro mundo e não havia sol, pois o conceito de sol não passava de um sonho a respeito da lâmpada no teto do castelo, que realmente existia. É interessante como nesse ponto Lewis diz que era um “alívio” para as crianças e para Rilian admitir que o sol não existia e por conseqüência concordar com a bruxa. Nesse “alívio” temos claramente a experiência de Lewis quando no auge de sua juventude se sentiu aliviado ao se declarar Ateu, obviamente o “alívio” vem do fato de que ceder ao feitiço do ceticismo dê um aparente “descanso” a mente que se encontra conflitante, porém é mais claro ainda como essa desistência e esse “alivio” tem um preço caro a ser pago adiante.

Eustaquio cita então num ultimo esboço de sanidade Aslam, o Leão que no mundo de Narina é a figura da Divindade Messiânica, o mesmo argumento do sol é usado de novo pela bruxa que diz que o leão não passa de um gato visto pelos garotos em seu “mundo real” e potencializado em leão pelas crianças em um “mundo imaginário”. Dessa forma as crianças e Rilian cedem totalmente ao feitiço do ceticismo e já parecem não mais crer em coisas que um dia foram tão reais em suas próprias experiências de vida. Este é o poder do ceticismo na vida do cristão, ele pode ludibriar nossa mente cauterizando nossa consciência a ponto de negarmos nossas próprias experiências pessoais com Deus. As crianças negaram um mundo do qual elas mesmas pessoalmente haviam feito parte.

A Feiticeira Verde só não contava com o pessimista Brejeiro. Pessoas pessimistas, quase sempre, estão prontas para qualquer situação. Brejeiro toma uma atitude radical quanto ao feitiço ele apaga com os próprios pés o fogo da lareira que espalhava o doce cheiro enebriante, o feitiço perde então a sua força, ao passo que, a terrível dor da queimadura acomete os pés de Brejeiro, porém é essa dor que esclarece seus pensamentos. Quando decide abandonar o ceticismo o homem se submete a uma terrível dor, a de ter certeza de que terá de dar conta de seus atos perante uma força superior, a consciência desse fato retira o homem de sua conduta errante e ausente de sentido e o conclama a uma mudança de vida radical, mas é justamente o temor da descoberta da eternidade que leva a mente do homem a se desvencilhar de todos os feitiços.

Assim, diante de uma Feiticeira desesperada por ter de encarar um ser sóbrio, Brejeiro começa o seu argumento:

Uma palavrinha, dona – disse ele, mancando de dor –, uma palavrinha: tudo o que disse é verdade. Sou um sujeito que gosta logo de saber tudo para enfrentar o pior com a melhor cara possível. Não vou negar nada do que a senhora disse. Mas mesmo assim uma coisa ainda não foi falada. Vamos supor que nós sonhamos, ou inventamos, aquilo tudo – árvores, relva, sol, lua, estrelas e até Aslam. Vamos supor que sonhamos: ora, nesse caso, as coisas inventadas parecem um bocado mais importantes do que as coisas reais. Vamos supor então que esta fossa, este seu reino, seja o único mundo existente. Pois, para mim, o seu mundo não basta. E vale muito pouco. E o que estou dizendo é engraçado, se a gente pensar bem. Somos apenas uns bebezinhos brincando, se é que a senhora tem razão, dona. Mas quatro crianças brincando podem construir um mundo de brinquedo que dá de dez a zero no seu mundo real. Por isso é que prefiro o mundo de brinquedo. Estou do lado de Aslam, mesmo que não haja Aslam. Quero viver como um Nárniano mesmo que Nárnia não exista. Assim agradeço sensibilizado a sua ceia, se estes dois cavalheiros e a jovem dama estão prontos, estamos de saída para os caminhos da escuridão, onde passaremos nossas vidas procurando o Mundo de Cima. Não que nossas vidas devam ser muito longas, certo; mas o prejuízo é pequeno se o mundo existente é um lugar tão chato como a senhora diz.

Dessa maneira Brejeiro destrói o feitiço cético e a bela Feiticeira e Rainha Verde se mostra a serpente sagaz que na verdade sempre foi. Em sua forma real ela acaba por ser finalmente morta. Assim C.S. Lewis através de seu personagem Brejeiro nos apresenta um argumento cabal contra toda a contestação cética que o Cristão verdadeiro encontra por onde quer que passe. A maioria esmagadora dos ateus pensa que o Cristão segue as leis divinas e os preceitos bíblicos simplesmente por temer o inferno. Vários textos bíblicos e o argumento do Brejeiro provam justamente o contrario: o Cristão Verdadeiro tem prazer na Lei de Deus. Não a segue por um temor. A praticaria mesmo se Deus fosse um sonho. Note que Brejeiro é o único que não deixa de crer na existência do mundo de cima hora alguma, porém ao argumentar ele se da o direito de supor a inexistência desse mundo e de Aslam, o que para ele é um absurdo, mas ele compreende que para argumentar contra o cético essa concessão passageira deve ser feita, pois só dessa maneira o cético será destituído de todo seu argumento. O que o ateu argumentará após declararmos que vivemos uma vida baseada em princípios Cristãos não por um medo de punição mas sim pelo prazer em viver dessa maneira? Mais complicada ainda fica a situação do ateu quando dizemos a ele que o “mundo real” dele não basta para nós, pois firmados nos princípios bíblicos nos tornamos maiores que este mundo, pois aquele que esta em nós já venceu este mundo. O mundo em que cremos e que para o ateu não passa de imaginação da de dez a zero no “mundo real” ao qual o ateu se prende quando cria artifícios, os mais diversos possíveis, para se esconder perante a realidade eminente da existência das coisas espirituais.
Estamos dispostos a trilhar por esse mundo de trevas, trilhar no caminho que leva ao Mundo de Cima, pois negar os “prazeres” desse “lugar tão chato” não é para nós prejuízo algum.

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Fonte: Argumentos Brejeiros

2 comentários:

Luciano Santos disse...

bela dica de texto!

já li o livro mas não tinha observado dessa forma.

Filipe Fly'n Dad God disse...

Interessante seu comentário mano,
nem terminei de ler e já pulei para comentar, rs.

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