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19 de ago. de 2011

36 argumentos para a existência de Deus. Ou contra...

Rebecca Goldstein: "Ateus e religiosos concordam mais sobre o mundo do que imaginam"Em entrevista ao site de VEJA, a "ateia com alma" Rebecca Goldstein critica o radicalismo de crentes e descrentes e comenta seu novo livro, uma saborosa "cilada" para os fanáticos de ambos os lados

Marco Túlio Pires
"Os ateus têm que acabar com o pedantismo. Eles não têm que ensinar como as pessoas religiosas devem pensar"
"As pessoas religiosas têm que parar de pensar que ateus são imorais e não sabem a diferença entre o bem e o mal, o certo e o errado"
Uma ateia em missão de paz. É assim que Rebecca Goldstein, doutora em filosofia pela Universidade de Princeton e pesquisadora na área de psicologia em Harvard (EUA), se posiciona nas discussões, sempre acaloradas, entre ateus e religiosos.
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11 de ago. de 2011

Frases Soltas - Calvin e Haroldo


Abaixo posto ótimas frases retiradas das tirinhas de Calvin e Haroldo. Boas para uma reflexão (ou várias reflexões):

8 de jun. de 2011

Jesus: Deus, Mentiroso ou Lunático - Cristianismo Puro e Simples - C.S Lewis



Um trecho do clássico "Cristianismo Puro e Simples" de C.S Lewis. Junto com vários clipes da "Paixão de Cristo" de Mel Gibson.

Clive Staples Lewis, conhecido como C. S. Lewis, (Belfast, 29 de Novembro de 1898 Oxford, 22 de Novembro de 1963) foi um autor e escritor irlandês que se salientou pelo seu trabalho académico sobre literatura medieval e pela apologética cristã que desenvolveu através de várias obras e palestras. É igualmente conhecido por ser o autor da famosa série de livros infantis de nome As Crônicas de Nárnia.

Entre seus clássicos se encontram:

- Cristianismo Puro e Simples
- O Problema do Mal
- Cartas do Inferno
- Os Quatro Amores
- Surpreendido pela Alegria (Autobiografia)

Foram vendidas mais de 200 milhões de cópias dos 38 livros escritos por Lewis, os quais foram traduzidos para mais de 30 línguas, incluindo a série completa de Nárnia para a língua Russa. Entre 1996 e 1998, quando foi celebrado o seu centenário, foram escritos cerca de 50 novos livros sobre sua vida e seus trabalhos, completando mais de 150 livros desde o primeiro, escrito em 1949 por Chad Walsh: "C. S. Lewis: O Apóstolo dos Céticos". É respeitado até pelos que não concordam com a sua abordagem, inclusive dando nome a um asteróide denominado 7644 Cslewis descoberto em 4 de novembro de 1988 por Antonín Mrkos.

Fonte (Wiki)

3 de jun. de 2011

Argumentações de Brejeiro ante ao Ceticismo Aberto

Por Raul Vitor Rodrigues Peixoto

Bem, considerem-se ao redor da fogueira experimentando um guisado de enguias com batatas. A paisagem ao lado é a charneca de Etin ao norte de Nárnia e essa cabana simples pertence ao nosso ilustre personagem: O Brejeiro.
Brejeiro é um personagem do livro “A Cadeira de Prata” de C.S. Lewis, a 6° Crônica de Nárnia. Meu fascínio por esse personagem começou com a primeira leitura que fiz deste livro, logo ele se tornou indiscutivelmente meu personagem favorito de todas as Crônicas. Uma identificação se tornou latente entre a minha personalidade e o peculiar personagem.

As situações que o paulama – nome da espécie a qual Brejeiro pertence – enfrentou durante sua “jornada do herói” eram quase que as mesmas situações que eu tenho de enfrentar em minha “jornada Cristã”. E a maneira como Brejeiro enfrenta essas situações adversas é a mais pessimista (ou realista, como eu prefiro) que se possa imaginar, e por conseqüências o mais cômico possível também.

O ápice desses embates que Brejeiro enfrenta é a discussão final com a Feiticeira Verde. Era incrível a que ponto a genialidade de Lewis poderia chegar, algo que aconteceu comigo por quase todos os dias em que estive na faculdade estava acontecendo alí nas paginas de um livro que “tecnicamente” era para crianças. Obviamente que a questão que era travada por Brejeiro e a Feiticeira Verdade antes de falar a mim, havia martelado na mente do próprio Lewis mais de meio século antes de martelar em minha mente. A questão dizia respeito ao Ceticismo.

Inteiro vocês da questão. O que se passa no momento da história é resumidamente o seguinte: As crianças Jill e Eustaquio estão juntamente com Brejeiro numa jornada em busca de um príncipe a muito perdido. Eles chegam então após muitos perigos a um reino subterrâneo onde os seres lá viventes são monótonos e praticamente não esboçam nenhum traço de alegria. As crianças e o paulama encontram o príncipe e o libertam de um terrível feitiço posto pela rainha daquele mundo, a Feiticeira Verde.
O que é mais interessante de se notar é que o feitiço dessa rainha é mais que algum componente mágico maléfico, seu principio ativo é o Ceticismo.

Mesmo depois de já terem ajudado príncipe Rilian a se libertar da mentira que o cativava na cadeira de prata e de todos saberem de sua maldade e sagacidade a Feiticeira Verde tenta novamente enfeitiçar Rilian e conseqüentemente Jill, Eustaquio e Brejeiro.

Com a ajuda de um pó mágico verde que subia da fogueira que inebriava os presentes no salão e tocando uma musica monótona em um bandolim – que também atrapalhava o raciocínio – a Feiticeira persuade seus alvos de que nada existe além do mundo triste e escuro que ela governa. As tentativas das crianças de dizerem que já estiveram no outro mundo, onde havia sol, florestas e céu azul eram taxativamente rechaçadas pela Feiticeira que acusava as crianças de estarem sonhando acordados, ao mesmo tempo que, dizia que imaginar esse tipo de coisa era para crianças pequenas e que eles já eram “grandinhos” demais para crerem nesse tipo de bobagem.

Quando as crianças citavam o sol, a Feiticeira as acusava de devaneios, pois elas apenas estavam vendo o lustre e imaginando por conseqüência um lustre gigantesco que iluminasse todo o céu, por conseqüência esse lustre não poderia existir pois seria apenas um aumentativo imaginário de um pequeno lustre que realmente existia.

As crianças caíram no feitiço e logo concordavam com a bruxa que na realidade não existia um outro mundo e não havia sol, pois o conceito de sol não passava de um sonho a respeito da lâmpada no teto do castelo, que realmente existia. É interessante como nesse ponto Lewis diz que era um “alívio” para as crianças e para Rilian admitir que o sol não existia e por conseqüência concordar com a bruxa. Nesse “alívio” temos claramente a experiência de Lewis quando no auge de sua juventude se sentiu aliviado ao se declarar Ateu, obviamente o “alívio” vem do fato de que ceder ao feitiço do ceticismo dê um aparente “descanso” a mente que se encontra conflitante, porém é mais claro ainda como essa desistência e esse “alivio” tem um preço caro a ser pago adiante.

Eustaquio cita então num ultimo esboço de sanidade Aslam, o Leão que no mundo de Narina é a figura da Divindade Messiânica, o mesmo argumento do sol é usado de novo pela bruxa que diz que o leão não passa de um gato visto pelos garotos em seu “mundo real” e potencializado em leão pelas crianças em um “mundo imaginário”. Dessa forma as crianças e Rilian cedem totalmente ao feitiço do ceticismo e já parecem não mais crer em coisas que um dia foram tão reais em suas próprias experiências de vida. Este é o poder do ceticismo na vida do cristão, ele pode ludibriar nossa mente cauterizando nossa consciência a ponto de negarmos nossas próprias experiências pessoais com Deus. As crianças negaram um mundo do qual elas mesmas pessoalmente haviam feito parte.

A Feiticeira Verde só não contava com o pessimista Brejeiro. Pessoas pessimistas, quase sempre, estão prontas para qualquer situação. Brejeiro toma uma atitude radical quanto ao feitiço ele apaga com os próprios pés o fogo da lareira que espalhava o doce cheiro enebriante, o feitiço perde então a sua força, ao passo que, a terrível dor da queimadura acomete os pés de Brejeiro, porém é essa dor que esclarece seus pensamentos. Quando decide abandonar o ceticismo o homem se submete a uma terrível dor, a de ter certeza de que terá de dar conta de seus atos perante uma força superior, a consciência desse fato retira o homem de sua conduta errante e ausente de sentido e o conclama a uma mudança de vida radical, mas é justamente o temor da descoberta da eternidade que leva a mente do homem a se desvencilhar de todos os feitiços.

Assim, diante de uma Feiticeira desesperada por ter de encarar um ser sóbrio, Brejeiro começa o seu argumento:

“– Uma palavrinha, dona – disse ele, mancando de dor –, uma palavrinha: tudo o que disse é verdade. Sou um sujeito que gosta logo de saber tudo para enfrentar o pior com a melhor cara possível. Não vou negar nada do que a senhora disse. Mas mesmo assim uma coisa ainda não foi falada. Vamos supor que nós sonhamos, ou inventamos, aquilo tudo – árvores, relva, sol, lua, estrelas e até Aslam. Vamos supor que sonhamos: ora, nesse caso, as coisas inventadas parecem um bocado mais importantes do que as coisas reais. Vamos supor então que esta fossa, este seu reino, seja o único mundo existente. Pois, para mim, o seu mundo não basta. E vale muito pouco. E o que estou dizendo é engraçado, se a gente pensar bem. Somos apenas uns bebezinhos brincando, se é que a senhora tem razão, dona. Mas quatro crianças brincando podem construir um mundo de brinquedo que dá de dez a zero no seu mundo real. Por isso é que prefiro o mundo de brinquedo. Estou do lado de Aslam, mesmo que não haja Aslam. Quero viver como um Nárniano mesmo que Nárnia não exista. Assim agradeço sensibilizado a sua ceia, se estes dois cavalheiros e a jovem dama estão prontos, estamos de saída para os caminhos da escuridão, onde passaremos nossas vidas procurando o Mundo de Cima. Não que nossas vidas devam ser muito longas, certo; mas o prejuízo é pequeno se o mundo existente é um lugar tão chato como a senhora diz.”

Dessa maneira Brejeiro destrói o feitiço cético e a bela Feiticeira e Rainha Verde se mostra a serpente sagaz que na verdade sempre foi. Em sua forma real ela acaba por ser finalmente morta. Assim C.S. Lewis através de seu personagem Brejeiro nos apresenta um argumento cabal contra toda a contestação cética que o Cristão verdadeiro encontra por onde quer que passe. A maioria esmagadora dos ateus pensa que o Cristão segue as leis divinas e os preceitos bíblicos simplesmente por temer o inferno. Vários textos bíblicos e o argumento do Brejeiro provam justamente o contrario: o Cristão Verdadeiro tem prazer na Lei de Deus. Não a segue por um temor. A praticaria mesmo se Deus fosse um sonho. Note que Brejeiro é o único que não deixa de crer na existência do mundo de cima hora alguma, porém ao argumentar ele se da o direito de supor a inexistência desse mundo e de Aslam, o que para ele é um absurdo, mas ele compreende que para argumentar contra o cético essa concessão passageira deve ser feita, pois só dessa maneira o cético será destituído de todo seu argumento. O que o ateu argumentará após declararmos que vivemos uma vida baseada em princípios Cristãos não por um medo de punição mas sim pelo prazer em viver dessa maneira? Mais complicada ainda fica a situação do ateu quando dizemos a ele que o “mundo real” dele não basta para nós, pois firmados nos princípios bíblicos nos tornamos maiores que este mundo, pois aquele que esta em nós já venceu este mundo. O mundo em que cremos e que para o ateu não passa de imaginação da de dez a zero no “mundo real” ao qual o ateu se prende quando cria artifícios, os mais diversos possíveis, para se esconder perante a realidade eminente da existência das coisas espirituais.
Estamos dispostos a trilhar por esse mundo de trevas, trilhar no caminho que leva ao Mundo de Cima, pois negar os “prazeres” desse “lugar tão chato” não é para nós prejuízo algum.

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Fonte: Argumentos Brejeiros

31 de mai. de 2011

Novo Pensamento POP “Evangélico”.


Por Robson Cavalcanti

Aí Deus apresentou uma proposta de decálogo a Moisés e pediu para ele descer do monte e ouvir as bases em assembleia liderada por Arão, e buscar um entendimento com o pessoal que havia optado pelo bezerro de ouro.

Aí Deus enviou o profeta para um diálogo com os sacerdotes de Baal visando um entendimento, como o pacto federativo que havia estabelecido com os filisteus, e todos os postes-ídolos deveriam ser tombados pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

E quando os profetas falavam, a fórmula do preâmbulo dos seus discursos era sempre: “Assim me parece que o Senhor acha, salvo melhor juízo”.

É claro que a pretensão de ser um único Deus a revelar uma única verdade seria algo extremamente arrogante, etnocêntrico, colonialista, patriarcal e misógino.

E temos que (depois da edição da “Bíblia dos Gordos”, da “Bíblia dos Magros”, da “Bíblia dos Torcedores do Corinthians”) devemos lançar a “Bíblia Politicamente Correta”, do(a) nosso(a) deus(a) pai/mãe ou pai/pai ou mãe/mãe, em que Jesus diz: “Eu sou um dos caminhos, uma das verdades, uma das vidas, e todos irão a Ele/Ela não necessariamente por mim”. “Ninguém precisa nascer de novo”, e “vai e continues na mesma, porque a sua orientação sexual deve ser respeitada”. Ao chegar a Jerusalém, Jesus entrou em um acordo com o Sindicato dos Vendilhões do Templo, e com a base aliada do Sinédrio.

Passada aquela alucinação (uma espécie de “porre espiritual”) que os fez imaginar que um cadáver voltara a andar, e o transe da festa do Pentecostes, Pedro foi peremptório: “Não se arrependam, pois essa conversa de ‘pecado original’ é uma balela e uma perda de energia para o nosso ministério de instaurar o reino de Deus por nossa conta e convidar o(a) próprio(a) para o coquetel de inauguração”.

E Paulo disse: “Deitem-se (ou fiquem de pé ou de cócoras) com qualquer um(a), desde que seja por mútuo consentimento entre adultos”. Ao que João arrematou: “E esses entrarão no Reino do Céu”. Paulo elogiou os deuses do areópago e apresentou Jesus como mais uma a, democraticamente, ter uma vaga no Olimpo e nos altares.

E a Bíblia deve ter uma nova “versão revista, corrigida e atualizada”, contendo todos os livros apócrifos, pois, afinal os gnósticos, os arianos, os docéticos, os pelagianos, foram apenas”tendências” da igreja, em sua riqueza e pluralidade no discurso sobre o sagrado, reprimidos pela intolerância.

E os chamados “Credo Apostólico” e “Credo Niceno”, esses horrorosos textos estreitos, deverão ter uma nova redação, iniciando: “Podemos ou não crer em Deus(a), não tão todo-poderoso…”.

A Reforma Protestante, devidamente atualizada aos tempos pós-modernos, deve eliminar a estreiteza das “Sola”.

Como diriam os caipiras mineiros: “Deus é um abiscoitado que nem sabe das coisas”, e cristianismo triunfante é aquele que ninguém vai mais à igreja.

Temos que dar um Ultimato a esses reacionários, bitolados, ultrapassados e homofóbicos:”Diálogo sempre; Proclamação nunca”!

Ouçamos a Pós-Modernidade, e especulemos interminavelmente…

O absoluto relativismo de nossas especulações é a porta da esperança.

[Via] Surian

21 de mai. de 2010

Fé Raciocinada

Disseram-me que para ter fé é preciso abrir mão da inteligência e simplesmente não concordo e nunca vou concordar, pois entendo que crer é um ato pensado (ou pelo menos deveria ser).

Para ter fé não creio que eu deva me desconectar do meu intelecto até o ponto de entrar em transe ou simplesmente abrir mão de qualquer conhecimento que exista no mundo seja ele filosófico, teológico ou proveniente de uma ciência exata qualquer.

Fé é a busca da racionalidade entre coisas que não se vê, mas são conscientes e ponderáveis bem diferentes da loucura, emoção e comoção. E até mesmo alienação.

Mas quem prega a não-inteligência da cristandade prega também as loucuras em nome de Deus e o achismo como revelação espiritual.

Nisso ocasiona-se a morte espiritual de toda uma nação e a fé idiotizante impera. E com isso muitos se protegem da ciência pregando a desinformação como arma apologética.

Mistificamos a ciência e tentamos dar a fé ares de pseudociência para nos sentirmos protegidos de toda linha cientifica, que segundo as “vítimas cristãs” contradiz a bíblia.

Adotamos o criacionismo científico que fugiu da ciência faz tempo e abraçou a especulação sem ter vergonha de cair no ridículo.
Parece que muitos pregam a “ciênciofobia” enquanto do outro lado da moeda existe a “religiofobia”.

Onde foram parar os dinossauros? A ciência explica com clareza e razão, enquanto os que declaram viver por fé tomam duas posturas distintas; ignoram o fato ou mistificam o fato para que ele encaixe apertadinho em sua fé.

Entre estudos apologéticos acalorados e sem razão e frases crentes decoradas o mundo sofre e o homem continua confuso em sua fé e sem ter razão e conhecimento de si e do mundo que o cerca.

Eu não quero defender o “ateísmo-religiofobista” e claro eu não defendo a ciência como algo primordial na vida, mas sim necessário.

E também não posso dizer que um ateu é todo razão e é superior a qualquer crente e que a ciência tem todas as respostas, assim eu cairia em um fundamentalismo cético que me emputece.
Dá para crer e pensar considerando tudo e indo a todas as fontes de pensamento e ciência sem precisar ter medo de algo.

É um pouco engraçado ver gente torcendo o nariz para a ciência enquanto não abre mão da sua TV de Plasma, Aspirina e outras comodidades que os cientistas trouxeram para o nosso dia-a-dia.

Nunca vi a razão (ciência) querer ou se colocar para acabar com a fé de alguém. A razão quebra o dogmatismo, atraso, superstição e intolerância e isso deveriamos tomar para nós não como ato de descoberta científica e sim como prática cristã diária.

19 de mar. de 2010

Deus Auto-Sustentável


Se supusermos que durante a história da humanidade fosse apagada toda revelação teológica como a bíblia, a tradição oral ou até mesmo qualquer tipo de milagre.

Sem essa revelação que nos permite exercitar a fé seria possível conhecermos Deus somente pelo exercício da razão?

Observando a argumentação de Emanuel Kant presente no Cânone da Razão Pura, podemos notar como o filósofo associa a possibilidade da existência de um Ser Supremo ao “interesse da razão” em responder à seguinte pergunta: o que me é permitido esperar? Em outras palavras, Kant conduz seu argumento, preliminarmente, condicionando o propósito da minha esperança à idéia prático-religiosa de Deus.

A razão, na tentativa de constituir um sistema entre a moralidade e felicidade, “se vê obrigada a admitir” um Criador.

O ato de crer é um ato pensado, portanto racional. A fé é inata por isso ela antecede a razão que é empírica. O que não é racional é a fé em si, que estabelece que você creia que algo seja plausível, sem averiguar a probabilidade. Essa é a forma prática, ou ainda uma das formas práticas da fé.

Se existisse um grupo de pessoas em uma ilha onde tivessem todas as condições de vida possível (água potável e comida) e que tivessem chegado bebes, sem terem tido contato com qualquer tipo de coisa que cerca a fé. Essas pessoas com o passar do tempo seriam céticos ou teístas?

É bem presumível que com o transpor do tempo cogitariam um ser capaz de atos de convenção para eles com a aparência de leis (a maçã que sempre cai, o pôr-do-sol, a chuva, a morte e o nascimento) e pelos padrões concluíriam que existiria uma “inteligência” (ou um ser racional), e a causalidade de tal ser de acordo com esta representação de leis é a sua vontade. Logo, a causa suprema da natureza, na medida em que tem de ser pressuposta para o bem supremo, é um ser que é a causa da natureza pelo entendimento e vontade (logo, o seu autor), isto é, Deus.

Até mesmo no mito da caverna (Sócrates-platão) entende-se que os prisioneiros eram teístas o que vale pensar não é se eram ou não monoteístas, panteístas ou politeístas.

O que vale o pensamento é de que é imaginável que o homem tendo ou não sistemas práticos de fé ao seu redor poderia chegar à conclusão da existência de um Ser Criador e talvez essa seja a grande questão e não se a fé é racional ou não.

Deus se auto-sustenta eternamente como Ser Supremo mesmo que o homem não o transmita de forma prática no atributo da fé. Deus se auto-sustenta em existência eterna e experiência reveladora em sua face criadora, na supremacia do bem ou na contemplação das coisas infinitas.

19 de out. de 2009

Entrevista com o Teólogo Hans Küng

Nesta longa entrevista à revista alemã Stern, o teólogo alemão Hans Küng é confrontado pelo entrevistador sobre suas convicções de fé e teológicas. Há 20 anos de ter sua "missio canonica" - a autorização para o ensino da teologia católica - sido revogada pela Congregação para a Doutrina da Fé, devido às suas críticas a João Paulo II, Küng encara também o tema da morte e avalia a sua trajetória de vida.
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A reportagem é de Arno Luik, publicada na revista alemã Stern, 15-10-2009. A entrevista publicada em alemão, foi traduzida do italiano por Moisés Sbardelotto.
Eis a entrevista.
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Senhor Küng, tenho uma tia com 98 anos que tem um grave problema: ela tem certeza que vai para o paraíso e irá encontrar lá seu marido, filhos e conhecidos, mas se questiona em que estado estarão: jovens, velhos, doentes, sãos?
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Entendo que a sua tia tenha tais preocupações. Não se sabe o que pode nos esperar além da porta da morte. Pessoalmente, não posso e não quero imaginar como é o paraíso. Toda pessoa gosta de imaginar, mas deve saber que são só suas imagens. Vivemos em uma época posterior a Copérnico e a Darwin - e portanto não podemos mais imaginar o paraíso como fizeram, por exemplo, Michelangelo e os pintores da Idade Média e do Barroco. Eu não acredito nessas representações simplistas do paraíso, segundo as quais ficaremos sentados em uma cadeirinha de ouro cantando "aleluia".
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O Papa Bento XVI acredita seguramente que no além, de algum modo, todos estão sentados juntos. Há não muito tempo, ele dizia que seu antecessor, João Paulo II, estava escorado na sacada da casa do Senhor olhando-nos: então, há um morto que olha lá de cima.
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Essa é uma representação surpreendentemente ingênua. O Papa se expressa às vezes de maneira pré-moderna e popular - uma herança da sua fé bávara agrícola. Naturalmente, ele também sabe que o paraíso não é uma casa em cima das nuvens com janelas do céu. Os cristãos iluminados entendem que, no além, nenhum cadáver é ressuscitado, mas que - como dizemos na liturgia - ocorre uma total transformação do modo de ser. Estou curioso para descobrir como será no além.
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Senhor Küng, o senhor certamente está desiludido com a sua vida aqui na terra.
Como assim?
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O senhor escreveu mais de 60 livros, mais de 30 mil páginas e...
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Trabalho com muito prazer. Com toda a modéstia, acredito ter produzido algo que torna o cristianismo, a religião, a ética novamente compreensíveis ao homem moderno.
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No entanto, o seu ardor...
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Não fui e não sou um fanático, nem um santo. Escrevo para as pessoas que estão em busca.
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Apesar do seu compromisso, desde 1989 as duas maiores Igrejas na Alemanha perderam mais de sete milhões de fiéis, e na oração das quartas-feiras em Roma participam anualmente dois milhões e meio de pessoas a menos com relação a alguns anos atrás com João Paulo II. O senhor consumiu seus dedos escrevendo, mas inutilmente.
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Não. Tive êxito! Um número incalculável de pessoas me escreve - diariamente - que eu fui uma ajuda para elas. Eu me tornei, involuntariamente, um porta-voz da leal oposição à sua Santidade. Um porta-voz que é levado a sério - até pelo próprio Papa. Estou presente dentro e fora da Igreja. Sem mim, muitos teriam abandonado a Igreja. Muitos me dizem: "Enquanto o senhor resistir dentro da Igreja, eu também resisto".
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No entanto, o senhor perdeu a sua batalha. O seu antagonista Ratzinger...
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Não é o meu antagonista, e a minha profissão não é crítico do Papa. Sou um reformador, não um subversivo. E não suporto ser sempre chamado de rebelde da Igreja ou...
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O seu antagonista se tornou Papa, entrou na história. O senhor será só uma nota de rodapé...
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É um desrespeito o que você está dizendo. Você não pode ver o futuro, você...
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Mas será assim!
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Você acredita? Como uma pessoa entra na história só a própria pessoa decide. Não importa a função, nem o poder. Um exemplo: Tomás de Aquino - não quero me colocar à sua altura - renunciou voluntariamente a qualquer cargo importante na Igreja. O Papa Inocêncio III, seu contemporâneo cultíssimo, foi o mais poderoso de todos os papas. Você conhece Inocêncio III? Não. Esse papa, poderosíssimo em seu tempo, é uma nota de rodapé, mesmo que ainda importante para os historiadores. Mas Tomás de Aquino é constantemente citado ainda hoje como uma autoridade. Não, não me sinto um perdedor.
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É claro que o senhor deve dizer e deve ver assim.
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Certamente eu vejo assim! Mas há uma outra coisa que entristece na vida: que Joseph Ratzinger, que, em 1966, eu chamei para a Universidade de Tübingen, não continuou no mesmo caminho da reforma, como eu fiz. Então, provavelmente temos hoje essa divisão da Igreja católica entre Igreja alta e Igreja baixa. Eu represento a Igreja baixa; ele, a Igreja alta. Todo o meu trabalho estava voltado para que a Igreja alta mudasse. E nisso, e aqui você tem razão, eu tive só um sucesso limitado. Mas quem venceu uma batalha ainda está longe de ter vencido a guerra. Eu acredito que a atual política do Vaticano é um fiasco. A tentativa de empurrá-la novamente para trás, para a Idade Média, a esvazia. Não se pode trazer os velhos tempos de volta à vida!
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Mas, diga-me, por que 200 anos depois do Iluminismo ainda se deveria acreditar em Deus?
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Sim, justamente como iluminista, eu lhe digo: existem milhares de motivos para não acreditar.
Nisso o senhor tem razão.
Diante da miséria do mundo e da própria vida, pode-se duvidar de Deus ou confiar em Deus. Não há nenhuma prova estritamente científica a favor de Deus. A sua existência não pode ser fundamentada em argumentos logicamente convincentes. Justamente segundo Immanuel Kant: a razão pura teorética fora do tempo e do espaço não é competente. Por isso, a existência de Deus não pode ser baseada em argumentos logicamente convincentes.
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Sério?!
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Não brinque. Você certamente ainda tem em mente, de um lado, a sua fé de criança, mas, de outro lado, a sua razão também não tem competência na questão da fé. A existência de Deus é uma questão de confiança razoável.
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Confiança razoável? Parece-me ser, pelo contrário, irrazoável, e acho que Mark Twain tinha razão: "A fé consiste em crer em algo que se sabe que não é verdade".
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Exatamente uma péssima frase de espírito. Porém, eu lhe respondo muito seriamente com uma frase da Carta aos Hebreus: "A fé é fundamento das coisas que se esperam e prova daquelas que não se veem". Portanto, apesar das suas dúvidas há milhares de motivos pelos quais uma pessoa - apesar de todas as contrariedades da vida - pode acreditar em Deus.
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Diga-me um.
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Sobre isso, justamente, recém escrevi um livro inteiro: "Quello in cui credo" (Aquilo em que creio), em tradução livre). A fé é sobretudo um problema de confiança de fundo. Confiança na vida. Gostaria de convidá-lo a admitir Deus pelo menos como hipótese. Tome a questão filosófica mundial: por que uma coisa existe no lugar de não ser, ou a inexplicável origem das fundamentais constantes da natureza ou da velocidade da luz. Mas também o problema do infinito na matemática, os rastros da transcendência na música - tudo isso pode ser um convite a crer em Deus.
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O cientista Richard Dawkins lhe responderia a essas palavras que ressoam tão belas...
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... Eu diria, ao invés, que ressoam tão verdadeiras!
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Ele diria: todas as religiões ensinam coisas sem sentido e são perigosas para a humanidade.
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Não me fale aqui desses novos ateus! Dawkins é um ideólogo que reage a uma imagem de Deus superada e argumenta de modo extremamente polêmico, sem porém levar a novas consequências. É um estudioso de ciências naturais, sem abertura a problemas filosóficos. Eu me ocupei dos grandes ateus clássicos, analisei Feuerbach, Marx, Nietzsche, Freud. Eles constituem um desafio para mim, não esse...
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"A religião", diz Marx, "é o suspiro da criatura oprimida, a alma de um mundo sem coração, o espírito de situações sem espírito. É o ópio do povo. A abolição da religião enquanto felicidade ilusória do povo é a condição necessária para a sua verdadeira felicidade: a condição necessária para renunciar às ilusões da sua situação, a condição necessária para renunciar a uma situação que precisa de ilusões".
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Marx tem razão: a religião pode ser o ópio do povo. A religião pode ser um meio de aquietamento e consolação social. Mas não deve ser isso. As análises de Marx também expressam, talvez contra a sua vontade, algo positivo, isto é, que a religião pode ser muito mais - um protesto contra as condições que temos, protesto contra as circunstâncias por causa das quais sofremos.
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Essa é a uma interpretação arriscada. "A crítica da religião", diz ainda Marx, "é o germe da crítica do vale de lágrimas do qual a religião é a auréola".
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Religião só reverbera? Nisso, Marx - como Feuerbach - provoca um curto-circuito. A religião é mais do que uma projeção. Como a fé, a esperança e o amor, ela não se exaure só no fato de fazer suportar a miséria dos homens consciente ou resignadamente! Não, a religião pode ser um motivo excepcionalmente forte, como diz Marx, não só para interpretar o mundo de forma diferente, mas para mudá-lo.
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Meu Deus, mas que mundo o seu Deus criou. Enquanto nós estamos aqui falando, crescem sem parar as montanhas de cadáveres. A cada cinco segundo uma criança com menos de 10 anos morre de fome ou de sede. Estamos falando de míseros trinta minutos - 360 crianças mortas!
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Por que Deus não impediu o mal? O filósofo grego Epicuro já volta essa pergunta contra a religião no ano 300 a.C. Mas talvez devemos nos perguntar antes: por que os homens não impediram o mal? Com relação ao mal, toda pessoa que crê em um Deus bom e vivo é confrontado neste mundo a um mistério que...
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O senhor chama de mistério a morte de crianças pela fome?
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Não. O mistério é por que Deus não impediu o mal. A dor imerecida de crianças não pode ser justificada com nenhuma argumentação. "Por que sofro? Essa é a rocha do ateísmo" é dito na tragédia de Büchner "A morte de Danton". Sim, por que sofremos? Essa é a pergunta original do homem. Você, senhor Luik, sabe dar uma resposta?
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O senhor, professor Küng, o senhor é o cristão crente. Eu espero ansiosamente a sua resposta.
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Que não é fácil. Também pertence ao mistério por que os homens não fazem mais contra a dor. De todos os modos, não podem atribuir toda a culpa a Deus. A humanidade, justamente no "avançado" século XX, experimentou o mal em uma medida até então desconhecida: extermínios de Estado, Auschwitz, a industrialização do massacre. Como Deus pôde permitir isso? O mistério do sofrimento não pode ser explicado com os meios da razão.
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Muito fácil.
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Nem por meio da psicologia, nem por meio da filosofia, nem por meio da moral a escuridão do sofrimento se deixa transformar em luz. Deus permanece incompreensível.
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Senhor Küng, além das palavras difíceis: o seu Deus estava em Auschwitz?
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Palavras difíceis? Deus não é responsável pelo horror do holocausto. Certamente, se Deus existe - e eu acredito nisso -, então Deus estava também em Auschwitz.
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Mas que Deus é esse que está em Auschwitz e não impede Auschwitz?
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Esse é um grito de protesto que eu compreendo. E é minha convicção que a monstruosa realidade de Auschwitz não pode ser liquidada mesmo com ardentes especulações sobre um Deus que sofre. A isso se dedica uma teologia do silêncio. Mas até em Auschwitz a fé era possível: crentes de diversas religiões voltaram a Deus a sua oração até na fábrica da morte, porque estavam convencidos de que, apesar de tudo, Deus existia. E você, de sua parte, deve se perguntar: o seu ateísmo explica o holocausto? A sua falta de fé explica o mundo, consegue consolar quem está no sofrimento sem sentido? Não! Nenhum dos grandes espíritos da humanidade que eu li resolveu o problema original do sofrimento e do mal.
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Mas nem o cristianismo que - é quase absurdo - fala do Deus bom, benévolo, indulgente. Um Deus que tudo sabe, que tudo guia.
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Essa é uma representação medieval do Deus onipotente, que guia todos os eventos cósmicos.
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Então eu estudei mal a religião!
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Não. Deus é espírito, que age dentro, com e no meio dos homens, mas que respeita a sua liberdade. E essa liberdade também compreende inevitavelmente o mal. O homem que sofre não pode chegar ao segredo dos projetos do criador sobre o mundo. O sofrimento, enorme, insensato - tanto individual quanto coletivo - não pode ser compreendido teoricamente, mas, no melhor dos casos, superado praticamente. Os judeus - os cristãos também - têm, como sofrimento extremo, a figura de Jó diante dos olhos. Esse homem perde tudo, sem culpa alguma: o patrimônio, a família, a saúde, torna-se mendigo, é atingido pela lepra. Lamenta-se com Deus e rejeita todos os argumentos a favor de Deus. Com isso, mostra que o homem não necessariamente deve acolher o sofrimento. Ele tem o direito de insurgir, de protestar, de se rebelar contra um Deus que lhe parece cruel, pérfido e astuto - e por meio dessas provas, Jó reencontra Deus!
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Isso é uma fábula.
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Isso é literatura mundial altamente dramática. Mas ainda mais do que Jó, para mim, como cristão, é Jesus, aquele Jesus que é abandonado, flagelado, que é caçoado, que morre lentamente na cruz, aquele que participou da terrível experiência do holocausto.

Para o senhor, como cristão, essa morte é certamente uma morte salvífica que...
... que remete para além da miséria, da dor, da morte! Até para céticos como o marxista Horkheimer era insuportável acreditar que a miséria tivesse a última palavra. Deve haver uma última justiça justamente para os pobres, os miseráveis deste mundo! E as crianças que sofrem sem culpa podem ter o conforto de que essa vida não é tudo, mas que têm diante de si uma vida sem dor.
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É o senhor mesmo quem diz: a fé é ópio.
Não, não é ópio. É conforto.
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O senhor tem agora mais de 80 anos e...
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... Estou consciente do fato de que o meu fim terreno está próximo. Antes eu pensava - a minha vida foi uma vida cansativa - que não chegaria aos 50 anos. Agora, faço as contas com a morte, cada hora pode ser a última. Quem tem a morte diante dos olhos todos os dias tem menos medo dela. Estou pronto. Vivi sete vidas. Não me permito nenhuma nostalgia de velhice, não me fixo espasmodicamente em querer ser jovem. Às vezes me perguntam: "Como gostaria de morrer?". Sorrindo, respondo: "Durante uma viagem de trabalho!". E então acrescento: "De todos os modos, não em uma casa de saúde".
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O seu amigo, o professor de retórica Walter Jens, afundou-se em um mundo além do pensamento, além das palavras, está louco. Foi um defensor da ajuda ativa a morrer. Sua mulher Inge diz: "Não aproveitou o momento certo em que poderia passar da vida para a morte".
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Para mim, a vida é um dom de Deus do qual sou responsável. E isso até o último suspiro. Está entregue à minha responsabilidade, e não à da Igreja, ou do Papa ou de um padre, de um médico, de um juiz. É minha responsabilidade, e, definitivamente, sou responsável da mais alta instância: Deus. Digo apenas que não gostaria de perder o momento certo.
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O que espera do fim da vida?
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Como disse, estou curioso. A morte é a primeira para todos. Tenho a fundada confiança de não cair no nada. "Isso é tudo", disse Kurt Tucholsky, que se tirou a vida em 1935. Ele escreveu: "Se tivesse que morrer agora, diria 'Isso é tudo?' - e 'Não entendi muito bem'". E: "Foi um pouco barulhento". Mas não, eu não penso assim! Não é tudo. Eu acredito na vida eterna.
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Walter Jens me dizia uma vez que encontraria com prazer Heinrich Böll e Willy Brandt lá em cima.
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Naturalmente, eu também me encontraria com muito prazer com determinadas pessoas. De todos os modos, preferiria Mozart a Brandt, e gostaria de conhecer Thomas Morus. Mas o que eu sei? As fantasias não tem nada a ver com a seriedade do morrer.
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E o que o senhor dirá a Deus, no caso de que exista, quando lhe perguntar: "O que fez para tornar o mundo melhor?".
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Sei que ele não me fará essa pergunta, porque ele sabe disso sem perguntar.
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Fonte: Instituto Humanitas – UNISINOS, RS
Recebi por email do Rev. Fernando Antônio Gonçalves.

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