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16 de ago. de 2011

C S Lewis e Tolkien Debate Mitos e Mentiras





***Para ver o vídeo legendado clique em CC no próprio vídeo e selecione o idioma da legenda.

27 de jun. de 2011

Brincar de Cristianismo

"Há aquilo que é mais contrário ao cristianismo, e à natureza do cristianismo. do que qualquer heresia, qualquer sectarismo, mais contrário do que todas as heresias e sectarismos juntos: brincar de cristianismo." (Ataque à Cristandade, pg. 8) - Soren Kierkegaard

6 de jun. de 2011

Ama, e Fazes o que Quiseres

Por Marco Alcantara


Meu estilo de vida cristã segue o preceito agostiniano: "Ama, e fazes o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos.”


Esta declaração de amor a tudo e a todos não se traduz em normas concretas válidas para todos os homens. Mas antes de tudo esse amor liberta da burocratização do evangelho, da autocontemplação, monopólio de Deus e das autoproclamações.

Os mandamentos da Lei de Deus são os espelhos que desvendam nossa imundície, que propriamente não obrigam os homens a se limparem, mas delineiam a maneira como se deve viver de amor. Ou seja, somente com o dom do amor poderemos cumprir integralmente a Lei.

Cada um tem a liberdade de aplicar a lei do amor às situações precisas e sucessivas de sua vida; com toda a liberdade, decida cada homem como há de praticar o amor; apenas toca-lhe o dever de auxiliar, preservar sempre a decência humana em cada uma de suas escolhas.

Talvez seja este meu estilo “amar e fazer o que quero” e ai que vejo a liberdade que existe através da graça proposta e não imposta por Cristo.

Existe em Cristo a proposta, o convite a amar e ser autêntico. Não existe obrigatoriedade em amar, mas no amor existe o “cuidar”, o zelo e a “responsabilidade por aqueles que você cativa”. E contra isso não há lei, morte, julgo, liturgia, dogma e religião que resista.

Individualmente somos todos semelhantes e nos diferenciamos na mais autêntica procedência que é o amor. Um grande fato é que podemos realizar várias coisas de boa aparência, mas que só refletem o nosso egoísmo de amarmos pelo politicamente correto e não por procedência da raiz do amor.

Contudo, Ame e não te ame no outro ou em suas próprias realizações.

Amar e fazer o que se quer, é a mais pura liberdade de um evangelho dinâmico onde nossos relacionamentos nos impulsionam a uma constante vontade de sermos o que realmente fomos chamados a ser ( irmãos).

Amar e fazer o que se quer é aquela liberdade extremamente recusada por nós; por que temos medo. Liberdade exige responsabilidade com o próximo e consigo mesmo.

Por fim, quem ama verdadeiramente, apenas é capaz de praticar o bem.

A raiz do cristianismo está nesta afirmação do apostolo João "Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele."

Nesta ocasião, encontra-se a forma cristã de Deus e a conseqüente representação do homem e do que precisa ser a sua atitude e obra.

Num tempo em que o nome de Deus anda às vezes associado à vingança e até ao "dever do ódio e da violência", esta é uma mensagem fundamental.

3 de jun. de 2011

Pequeno Tratado das Grandes Virtudes


Se a virtude pode ser ensinada, como creio, é mais pelo exemplo do que pelos livros. Então, para que um tratado das virtudes?

Para isto, talvez: tentar compreender o que deveríamos fazer, ou ser, ou viver, e medir com isso, pelomenos intelectualmente, o caminho que daí nos separa. Tarefa modesta, tarefainsuficiente, mas necessária.
Os filósofos são alunos (só os sábios são mestres), e alunos precisam de livros; é por isso que eles às vezes escrevem livros, quando os que têm à mão não os satisfazem ou sufocam. Ora, que livro é mais urgente, para cada um de nós, do que um tratado de moral? E o que é mais digno de interesse, na moral, do que as virtudes?
Assim como Spinoza, não creio haver utilidade em denunciar os vícios, o mal, o pecado. Para que sempre acusar, sempre denunciar?

É a moral dos tristes, e uma triste moral. Quanto ao bem, ele só existe na pluralidade irredutível das boas ações, que excedem todos os livros, e das boas disposições, também elas plurais, mas sem dúvida menos numerosas, que a tradição designa pelo nome de virtudes, isto é (este é o sentido em grego da palavra arete, que os latinos traduziram por virtus), de excelências. O que é uma virtude?

É uma força que age, ou que pode agir. Assim a virtude de uma planta e de um remédio, que é tratar, de uma faca, que é cortar, ou de um homem, que é querer e agir humanamente. Esses exemplos, que vêm dos gregos, dizem suficientemente o essencial: virtude é poder, mas poder específico.

A virtude do heléboro não é a da cicuta, a virtude da faca não é a da enxada, a virtude do homem não é a do tigre ou da cobra.

A virtude de um ser é o que constitui seu valor, em outras palavras, sua excelência própria: a boa faca é a que corta bem, o bom remédio é o que cura bem, o bom veneno é o que mata bem...


Pequeno tratado das grandes virtudes. pág 4. Sponville

Argumentações de Brejeiro ante ao Ceticismo Aberto

Por Raul Vitor Rodrigues Peixoto

Bem, considerem-se ao redor da fogueira experimentando um guisado de enguias com batatas. A paisagem ao lado é a charneca de Etin ao norte de Nárnia e essa cabana simples pertence ao nosso ilustre personagem: O Brejeiro.
Brejeiro é um personagem do livro “A Cadeira de Prata” de C.S. Lewis, a 6° Crônica de Nárnia. Meu fascínio por esse personagem começou com a primeira leitura que fiz deste livro, logo ele se tornou indiscutivelmente meu personagem favorito de todas as Crônicas. Uma identificação se tornou latente entre a minha personalidade e o peculiar personagem.

As situações que o paulama – nome da espécie a qual Brejeiro pertence – enfrentou durante sua “jornada do herói” eram quase que as mesmas situações que eu tenho de enfrentar em minha “jornada Cristã”. E a maneira como Brejeiro enfrenta essas situações adversas é a mais pessimista (ou realista, como eu prefiro) que se possa imaginar, e por conseqüências o mais cômico possível também.

O ápice desses embates que Brejeiro enfrenta é a discussão final com a Feiticeira Verde. Era incrível a que ponto a genialidade de Lewis poderia chegar, algo que aconteceu comigo por quase todos os dias em que estive na faculdade estava acontecendo alí nas paginas de um livro que “tecnicamente” era para crianças. Obviamente que a questão que era travada por Brejeiro e a Feiticeira Verdade antes de falar a mim, havia martelado na mente do próprio Lewis mais de meio século antes de martelar em minha mente. A questão dizia respeito ao Ceticismo.

Inteiro vocês da questão. O que se passa no momento da história é resumidamente o seguinte: As crianças Jill e Eustaquio estão juntamente com Brejeiro numa jornada em busca de um príncipe a muito perdido. Eles chegam então após muitos perigos a um reino subterrâneo onde os seres lá viventes são monótonos e praticamente não esboçam nenhum traço de alegria. As crianças e o paulama encontram o príncipe e o libertam de um terrível feitiço posto pela rainha daquele mundo, a Feiticeira Verde.
O que é mais interessante de se notar é que o feitiço dessa rainha é mais que algum componente mágico maléfico, seu principio ativo é o Ceticismo.

Mesmo depois de já terem ajudado príncipe Rilian a se libertar da mentira que o cativava na cadeira de prata e de todos saberem de sua maldade e sagacidade a Feiticeira Verde tenta novamente enfeitiçar Rilian e conseqüentemente Jill, Eustaquio e Brejeiro.

Com a ajuda de um pó mágico verde que subia da fogueira que inebriava os presentes no salão e tocando uma musica monótona em um bandolim – que também atrapalhava o raciocínio – a Feiticeira persuade seus alvos de que nada existe além do mundo triste e escuro que ela governa. As tentativas das crianças de dizerem que já estiveram no outro mundo, onde havia sol, florestas e céu azul eram taxativamente rechaçadas pela Feiticeira que acusava as crianças de estarem sonhando acordados, ao mesmo tempo que, dizia que imaginar esse tipo de coisa era para crianças pequenas e que eles já eram “grandinhos” demais para crerem nesse tipo de bobagem.

Quando as crianças citavam o sol, a Feiticeira as acusava de devaneios, pois elas apenas estavam vendo o lustre e imaginando por conseqüência um lustre gigantesco que iluminasse todo o céu, por conseqüência esse lustre não poderia existir pois seria apenas um aumentativo imaginário de um pequeno lustre que realmente existia.

As crianças caíram no feitiço e logo concordavam com a bruxa que na realidade não existia um outro mundo e não havia sol, pois o conceito de sol não passava de um sonho a respeito da lâmpada no teto do castelo, que realmente existia. É interessante como nesse ponto Lewis diz que era um “alívio” para as crianças e para Rilian admitir que o sol não existia e por conseqüência concordar com a bruxa. Nesse “alívio” temos claramente a experiência de Lewis quando no auge de sua juventude se sentiu aliviado ao se declarar Ateu, obviamente o “alívio” vem do fato de que ceder ao feitiço do ceticismo dê um aparente “descanso” a mente que se encontra conflitante, porém é mais claro ainda como essa desistência e esse “alivio” tem um preço caro a ser pago adiante.

Eustaquio cita então num ultimo esboço de sanidade Aslam, o Leão que no mundo de Narina é a figura da Divindade Messiânica, o mesmo argumento do sol é usado de novo pela bruxa que diz que o leão não passa de um gato visto pelos garotos em seu “mundo real” e potencializado em leão pelas crianças em um “mundo imaginário”. Dessa forma as crianças e Rilian cedem totalmente ao feitiço do ceticismo e já parecem não mais crer em coisas que um dia foram tão reais em suas próprias experiências de vida. Este é o poder do ceticismo na vida do cristão, ele pode ludibriar nossa mente cauterizando nossa consciência a ponto de negarmos nossas próprias experiências pessoais com Deus. As crianças negaram um mundo do qual elas mesmas pessoalmente haviam feito parte.

A Feiticeira Verde só não contava com o pessimista Brejeiro. Pessoas pessimistas, quase sempre, estão prontas para qualquer situação. Brejeiro toma uma atitude radical quanto ao feitiço ele apaga com os próprios pés o fogo da lareira que espalhava o doce cheiro enebriante, o feitiço perde então a sua força, ao passo que, a terrível dor da queimadura acomete os pés de Brejeiro, porém é essa dor que esclarece seus pensamentos. Quando decide abandonar o ceticismo o homem se submete a uma terrível dor, a de ter certeza de que terá de dar conta de seus atos perante uma força superior, a consciência desse fato retira o homem de sua conduta errante e ausente de sentido e o conclama a uma mudança de vida radical, mas é justamente o temor da descoberta da eternidade que leva a mente do homem a se desvencilhar de todos os feitiços.

Assim, diante de uma Feiticeira desesperada por ter de encarar um ser sóbrio, Brejeiro começa o seu argumento:

“– Uma palavrinha, dona – disse ele, mancando de dor –, uma palavrinha: tudo o que disse é verdade. Sou um sujeito que gosta logo de saber tudo para enfrentar o pior com a melhor cara possível. Não vou negar nada do que a senhora disse. Mas mesmo assim uma coisa ainda não foi falada. Vamos supor que nós sonhamos, ou inventamos, aquilo tudo – árvores, relva, sol, lua, estrelas e até Aslam. Vamos supor que sonhamos: ora, nesse caso, as coisas inventadas parecem um bocado mais importantes do que as coisas reais. Vamos supor então que esta fossa, este seu reino, seja o único mundo existente. Pois, para mim, o seu mundo não basta. E vale muito pouco. E o que estou dizendo é engraçado, se a gente pensar bem. Somos apenas uns bebezinhos brincando, se é que a senhora tem razão, dona. Mas quatro crianças brincando podem construir um mundo de brinquedo que dá de dez a zero no seu mundo real. Por isso é que prefiro o mundo de brinquedo. Estou do lado de Aslam, mesmo que não haja Aslam. Quero viver como um Nárniano mesmo que Nárnia não exista. Assim agradeço sensibilizado a sua ceia, se estes dois cavalheiros e a jovem dama estão prontos, estamos de saída para os caminhos da escuridão, onde passaremos nossas vidas procurando o Mundo de Cima. Não que nossas vidas devam ser muito longas, certo; mas o prejuízo é pequeno se o mundo existente é um lugar tão chato como a senhora diz.”

Dessa maneira Brejeiro destrói o feitiço cético e a bela Feiticeira e Rainha Verde se mostra a serpente sagaz que na verdade sempre foi. Em sua forma real ela acaba por ser finalmente morta. Assim C.S. Lewis através de seu personagem Brejeiro nos apresenta um argumento cabal contra toda a contestação cética que o Cristão verdadeiro encontra por onde quer que passe. A maioria esmagadora dos ateus pensa que o Cristão segue as leis divinas e os preceitos bíblicos simplesmente por temer o inferno. Vários textos bíblicos e o argumento do Brejeiro provam justamente o contrario: o Cristão Verdadeiro tem prazer na Lei de Deus. Não a segue por um temor. A praticaria mesmo se Deus fosse um sonho. Note que Brejeiro é o único que não deixa de crer na existência do mundo de cima hora alguma, porém ao argumentar ele se da o direito de supor a inexistência desse mundo e de Aslam, o que para ele é um absurdo, mas ele compreende que para argumentar contra o cético essa concessão passageira deve ser feita, pois só dessa maneira o cético será destituído de todo seu argumento. O que o ateu argumentará após declararmos que vivemos uma vida baseada em princípios Cristãos não por um medo de punição mas sim pelo prazer em viver dessa maneira? Mais complicada ainda fica a situação do ateu quando dizemos a ele que o “mundo real” dele não basta para nós, pois firmados nos princípios bíblicos nos tornamos maiores que este mundo, pois aquele que esta em nós já venceu este mundo. O mundo em que cremos e que para o ateu não passa de imaginação da de dez a zero no “mundo real” ao qual o ateu se prende quando cria artifícios, os mais diversos possíveis, para se esconder perante a realidade eminente da existência das coisas espirituais.
Estamos dispostos a trilhar por esse mundo de trevas, trilhar no caminho que leva ao Mundo de Cima, pois negar os “prazeres” desse “lugar tão chato” não é para nós prejuízo algum.

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Fonte: Argumentos Brejeiros

30 de mai. de 2011

Porque vocês, remidos, não parecem remidos

“Porque vocês, remidos, não parecem remidos. São tão cheios de temor, tão dominados pela culpa, tão ansiosos, tão confusos e tão sem direção quanto eu. Mas eu posso ser assim. Eu não creio. Não tenho nada sobre o que lançar a minha esperança. Mas vocês afirmam ter um Salvador. Por que não parecem salvos?”

(Frederich Nietzsche)

A Fim de que o Amor Encontre uma Base


Screwtape defende a impossibilidade do amor

ELE [o Inimigo] visa a uma contradição. Alega que as coisas sejam múltiplas, ainda que, de uma forma ou de outra, também sejam uma só.

O bem de alguém deve ser o bem de outro.

Ele chama de amor essa coisa francamente impossível de acontecer, essa mesma panacéia tediosa que se pode detectar em tudo que ele faz e, até mesmo, em tudo o que ele é – ou reivindica ser.

Portanto, o Inimigo não se contenta em ser uma simples unidade aritmética absoluta em si mesmo; ele reivindica ser um, e ao mesmo tempo, três, a fim de que essa bobagem sobre amor possa encontrar fundamento em sua própria natureza.

No entanto, ele apresenta em matéria aquela invenção obscena que é o organismo, em que as partes são pervertidas do seu destino natural de competição e feitas para cooperar.

O real motivo do Inimigo para se fixar no sexo como o método de reprodução entre os seres humanos é óbvio demais a partir do uso que ele lhe deu. O sexo bem que podia ter se tornado algo bastante inocente do nosso ponto de vista. Bem que podia ter se tornado uma maneira a mais, pela qual uma personalidade mais forte fizesse uma mais fraca de presa – do jeitinho que as coisas funcionam entre as aranhas: a noiva conclui as suas núpcias devorando o noivo.

Mas no caso dos seres humanos, o Inimigo teve gratuitamente associou a afeição entre as partes ao desejo sexual. Ele também fez os descendentes dependerem dos pais e deu aos pais a força de suportá-los – produzindo assim a Família, que é como um organismo, só que bem pior; porque os seus membros são mais distintos, ainda que unidos da forma mais consciente e responsável. Tudo isso, com efeito, constitui-se em simples expediente para que se efetivem as impulsões do amor.

– de The Screwtape Letters [Cartas do Diabo a seu Aprendiz] 1932 Lewis começa a escrever The Pilgrim’s Regress [O Regresso do Peregrino].

Retirado de Um Ano com C. S. Lewis ( Editora Ultimato, 2005)

25 de mai. de 2011

Devoção

Em vez de sermos seduzidos por novidades religiosas importadas e apostiladas, podemos olhar para o testemunho da história da Igreja e aprender com seus santos. João Cassiano, um dos pais do deserto, que viveu no Egito e na Gália nos anos de 360 e 465 toma o texto em que Jesus nos convida a orar em secreto (Mateus 6:5-8) e ensina:




"Devemos nos preocupar particularmente em seguir o preceito evangélico nos recomenda entrar no quarto e fechar a porta para orar ao nosso Pai.

Eis como cumpri-lo:
Oramos em nosso quarto quando afastamos inteiramente nosso coração do tumulto dos pensamentos e das preocupações; numa espécie de colóquio secreto de amizade muito suave, revelamos ao Senhor os nossos desejos.
Oramos com a porta fechada quando invocamos, sem descerrar os lábios, aquele que não leva em consideração as palavras, mas olha para o coração.
Oramos em secreto quando falamos com Deus somente pelo coração e a concentração da alma, e manifestamos só a ele nossas disposições, de tal modo que as potências adversas não possam adivinhar sua natureza. Tal é a razão do profundo silêncio que se deve guardar na oração. Nossas preces devem ser freqüentes, mas curtas para evitar que, caso se prolonguem, o inimigo tenha a possibilidade de insinuar a distração."
Extraído do livro Meditatio de Osmar Ludovico. [via] Chão Da Vida

10 de mai. de 2011

Celebrando a Graça Criacional da Arte

Hans Rookmaaker: Celebrando a Graça Criacional da Arte
Dr. Taylor Worley é Professor Adjunto de Pensamento e Tradição Cristãos e Reitor Adjunto para Vida Espiritual na Union University.


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Francis Schaeffer talvez seja o nome mais comumente associado com a tradição neocalvinista e o engajamento cultural. Mas o comentário de Schaeffer sobre arte e cultura jamais teria alcançado o nível de influência ou respeito que alcançou sem a inestimável percepção artístico-histórica-cultural e a amizade de Hans Rookmaaker. Além de ter sido um contínuo recurso para o movimento L’Abri, Rookmaaker se mostrou indispensável para o mais amplo projeto de engajamento do cristianismo com os corações. Seu treinamento como historiador de arte e a rigorosa percepção de seu trabalho conferiram credibilidade ao projeto de Schaeffer, o qual teria sido prejudicado grandemente sem ele. Essa influência continua até hoje através do impacto de seu livro A Arte Moderna e a Morte de uma Cultura, uma obra altamente influente e bem-sucedida em termos de vendas e que tem sido um guia por gerações.

Nesse livro, Rookmaaker faz uma corajosa afirmação da arte como parte integral da criação de Deus. Seguindo as vozes seminais do pensamento neocalvinista, ele reconhece que Deus governa e sustenta toda a criação através de ordenanças divinas; ele afirma que cada esfera da vida tem seu próprio conjunto de ordenanças e possui uma soberania que não deve ser violada pela soberania de outra esfera. Devido a essa graça criacional, Rookmaaker insistia que “a arte não precisa de justificativa.”

Assim, a arte deve abrir os olhos das pessoas, ou servir como decoração, ou louvor, ou ter uma função social, ou expressar uma filosofia em particular. A arte não precisa de desculpas. Ela possui seu próprio significado que não precisa ser explicado, assim como o casamento ou o próprio ser humano, ou a existência de um pássaro ou flor ou montanha ou mar ou estrela. Todos eles detém um significado porque Deus os criou. Seu significado é que foram criados por Deus e são por Ele sustentados. Assim, a arte tem sentido como arte porque Deus considerou bom dar arte e beleza à humanidade. [1]

A celebração da graça criacional da arte por Rookmaaker deriva de sua alegria, não de seu desprezo, pelos detalhes artístico-históricos de uma obra. Dessa forma, ele representa uma voz singular no importante diálogo entre o cristianismo e as artes. De maneira específica, sua fé na graça criacional da arte significou muito para gerações inteiras de cristãos em busca de um valor fundamental com o qual embasar seu apreço pelas artes.

Juntamente com outra linha dominante da reflexão cristã sobre a arte moderna, a natureza distinta da abordagem de Rookmaaker entra em foco. Paul Tillich e outros importantes herdeiros de seu legado também deram atenção a figuras-chaves na arte moderna, mas sua abordagem dessas obras demonstra uma perspectiva muito diferente da de Rookmaaker. Na abordagem da Tillich à uma teologia da cultura, o “método de correlação” busca identificar os impulsos religiosos de uma forma de cultura e abordar esses impulsos em seus próprios termos. Infelizmente, essa abordagem frequentemente resultou na embaraçosa prática de Tillich de incluir suas visões existencialistas em uma obra de arte, como no caso de seus comentários sobre Guernica de Picasso.[2] Se por um lado Tillich buscou estabelecer um suposto espaço neutro para a consideração das obras de arte, a visão de Rookmaaker não tinha lugar para essas ilusões. Seu profundo compromisso com a graça criacional da arte significava que Rookmaaker jamais poderia divorciar a apreciação estética de uma obra da sua afirmação básica ou negação da glória de Deus na criação. Enquanto esse compromisso na maioria das vezes gerava uma tendência em Schaeffer à pronta crítica de obras de arte não-cristãs, a profunda apreciação de Rookmaaker pela arte de obras claramente antagônicas ao cristianismo serviam como um corretivo sutil à atitude áspera de seus colegas. Mesmo em A Arte Moderna e a Morte de uma Cultura, ele consegue discutir obras de valor religioso conflitantes com impressionante mutualidade.

Dessa forma, Rookmaaker foi prova viva – um exemplo muito presente – do que o neocalvinismo buscava na nova geração, notadamente, um cristão que desejasse tanto pensar rigorosamente quanto cristãmente sobre o campo primário da cultura em que viviam. Seus interesses e obra se expandiram além da arte visual para várias outras esferas culturais; isso é bem representado na maravilhosa edição de seis volumes de sua obra completa, compilada por sua filha Marleen Hengelaar-Rookmaaker. [3] Seu exemplo preparou o caminho para essa próxima geração: Calvin Seerveld, Nicholas Wolterstorff, William Dyrness, Adrienne Chaplin, Jeremy Begbie, Makoto Fujimara e Daniel Siedell – junto com as importantes vozes que escrevem essa série de artigos online – de alguma forma reconhecem a influência generativa que Rookmaaker teve sobre suas carreiras no engajamento cristão com os corações.

De muitas maneiras, o legado de qualquer pensador pode ser medido pelas opções que essa pessoa oferece àqueles que virão depois, e muitas avenidas de exploração reflexiva nas artes foram abertas para nós através do trabalho de Hans Rookmaaker.

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[1] H. R. Rookmaaker, Modern Art and the Death of a Culture, 2nd ed. (Londres: Inter-Varsity Press, 1973), 229-30.
[2] Cf. “Masterpieces of Religious Art” in Paul Tillich, Jane Dillenberger, e John Dillenberger, On Art and Architecture (Nova Iorque: Crossroad, 1987), 233.
[3] Hans R. Rookmaaker e Marleen Hengelaar-Rookmaaker ed., The Complete Works of Hans Rookmaaker, 6 Vols. (Carlisle: Piquant, 2002)


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Traduzido a partir do original em inglês por Fernando Guarany Jr [Coordenador de Traduções e Membro da L'Abrarte] .

6 de mai. de 2011

Espiritualidade e Consciência Política

Por Bispo Robinson Cavalcanti (*)

Palestra proferida no Fórum Cristão de Profissionais, na noite do dia 13.09.2010, na Igreja Batista de Água Branca (SP)

01. O século XX nos legou duas concepções inadequadas sobre o ser humano. A primeira foi o totalitarismo: nela não há um valor do ser em si, mas a individualidade é dissolvida no todo abrangente e asfixiante. O todo do Estado, dominado pelo aparelho burocrático do partido único, sem limites, e que tudo pode, eliminando-se, radicalmente, quaisquer diferenças entre a esfera pública e a esfera privada, com a inexistência dos direitos civis e das liberdades públicas. A complexidade humana sucumbia ao devaneio de uma “idade de ouro” ao final do processo. O ser no totalitarismo é um não ser. Uma segunda foi a do individualismo, com uma ideologia de um conceito do ser como indivíduo. O individualismo, com um ser ensimesmado, egocentrado, nos reconduz a um estado de natureza marcado por um “darwinismo social”, pela sobrevivência do mais forte, do mais apto. Individualismo que aliena da natureza, do próximo e de si mesmo, e que conduz ao hedonismo consumista e imediatista, com os outros seres vistos como objetos.

02. O Totalitarismo e o Individualismo não são apenas concepções inadequadas e antiéticas, mas têm como pano de fundo a Modernidade, com uma antropologia otimista, crente no mito da bondade natural dos seres, na negação das ambiguidades, onde o negativo está fora de nós, no outro ou no sistema, no mito do progresso, onde o “homem bom” atingiria uma “terra sem males”, no mito da Razão ou da Ciência, como recursos ilimitados para esse fim, crente nesse “fim da História”, que é o mito das Utopias Globais. O fim da Modernidade tem passado pelo descrédito desses quatro mitos.

03. O ocaso da Modernidade não nos tem livrado da tentação totalitária, inclusive o totalitarismo do individualismo. Esse ocaso trouxe um cansaço do ser, que não encontra respostas nem dentro de si, nem fora de si. Se redescobre, dolorosamente, as limitações, as ambiguidades e a maldade, enquanto buscamos para a vida um significado e um propósito existencial. Uma questão adicional ao Totalitarismo e ao Individualismo é o materialismo. Como humanos somos seres materiais, pois não somos imateriais ou metafísicos, mas a materialidade não esgota a natureza do ser. As diversas expressões de materialismo são simplistas e reducionistas. Os humanismos antropocêntricos não conseguem escapar das amarras limitadoras do materialismo, e esses não respondem às perguntas básicas do ser sobre o ser, nem produzem as condições subjetivas ou objetivas para o que denominamos comumente como “felicidade”.

04. Do século passado não recebemos apenas os legados inadequados do Totalitarismo e do Individualismo. Os humanismos não-antropocêntricos, mas teocêntricos, não materialistas, mas espiritualistas – particularmente na tradição judaico-cristã – procuraram construir uma alternativa para descrever o ser, nem como peça, nem como átomo, mas como pessoa. O conceito de pessoa assume a complexidade do ser, sua multidimensionalidade, suas relações, seus valores. Um ser que é, ontologicamente, igual a todos os seres, mas que é, ao mesmo tempo, cada um, singular, único. A pessoa é alguém que tem consciência do ser em si, mas também do ser para o outro, da sua humanidade, da sua singularidade, das suas potencialidades e possibilidades, das suas limitações, dos seus direitos e deveres, da sua ambiguidade moral, com sua tensão entre o bem e o mal, entre o desejo e a realização, a construção e a destruição, os sentimentos altruístas e solidários e os sentimentos egoístas e destrutivos. A pessoa se percebe como parte e co-responsável pela natureza, pelo todo da criação, e pela necessidade da vida em sociedade, pelo eu-tu: com a Divindade, o outro e o todo, e pelo eu-eu do autoconhecimento sincero e realista.

05. Corpo, mente, alma, sentimentos, relacionamentos, valores, humanidade, uma imanência iluminada pela transcendência, uma vida iluminada pela consciência da morte e esperança da eternidade. Essa herança de correntes filosóficas como o Personalismo, o Solidarismo, do Humanismo Integral, e de correntes psicoterapêuticas como a Terapia Centrada na Pessoa. Pessoa que procura se autoconhecer e conhecer o outro, que alimenta aspirações, sonhos, projetos, que afirma convicções, que se realiza e valoriza as instâncias sociais intermediárias entre ele e o Estado: a família, a vizinhança, a comunidade, o círculo de amigos, o trabalho, o lazer, as instituições religiosas, os movimentos sociais, na diversidade de papéis e na riqueza de relacionamentos. A pessoa se constrói como ser solidário, que sonha com uma sociedade solidária.

06. A complexa e concreta humanidade, portanto, não se move sem uma espiritualidade. Estética e Ética estão além da materialidade. A beleza, os sentimentos, os valores e a fé integram a rica dimensão do espiritual que necessitamos cultivar para sermos mais plenos e mais humanos. O ser humano, transformado pela sociedade urbano-industrial, em um mero homo faber, destinado ao trabalho, ao ganho e ao gasto, percebe o vazio, a alienação de sua condição humana. Redescobre, então, o valor do lazer, o homo ludens, a realização do não-fazer, do apenas ser, percebendo que na narrativa da Criação, Deus, no sétimo dia, “descansou”. Redescoberta do valor do repouso, do silêncio, da meditação, da contemplação, do prazer (inclusive erótico), do olhar estético e nada mais. Redescobre o prazer de pensar em si, a vida, a criação, o outro, a alegria, o amor, o voltar-se para a transcendência, a imaterialidade, a divindade. A pessoa se realiza terapeuticamente. Viver a pessoa como um processo permanente de cura, e como instrumento de cura para o todo da Criação, da qual ele faz parte e a qual ele é responsável.

07. O homo ludens descobre a arte de amar nas ações comunitárias, na alteridade da presença confortadora e apoiadora junto aos que sofrem, nos atos coletivos que almejam a superação de privações e a promoção do bem-comum, no exercício responsável da cidadania, nos órgãos de classe, nos clubes de serviço, nos partidos políticos, crendo na possibilidade de reconstruir o mundo, crescendo a nossa humanidade no crescimento da consciência e na vivência de valores. O mundo do trabalho não deveria ser condicionado pelo mundo do não-trabalho, onde construímos o nosso ser, e emprestamos sentido ao conjunto da existência, inclusive ao mundo do trabalho? A esse projeto de vida abrangente poderíamos denominar de Espiritualidade, e a necessidade de uma Espiritualidade é algo inato ao ser, à condição humana, e nos mutilamos e nos frustramos quando não a exercitamos. Espiritualidade que inclui riso e choro, dor e prazer, vida e morte, limites e superação de limites.

08. A concretude da vida humana complexa é iluminada a partir de uma teleologia, das descobertas de um sentido último, profundo, abrangente, que vai além do material, da rotina, do aqui e do agora que nos aprisionam; que vai além do ter, conhecendo o ser e o seu sentido último. A crise do materialismo foi a crise de um vazio, de uma parcialização, de uma mutilação, de uma incompletude. O lugar do sagrado não é um dado meramente cultural, mas uma necessidade existencial. Por isso os analistas falam hoje de um “reencantamento do mundo”, em uma “volta do sagrado e ao sagrado”. Como profissionais somos antes de tudo seres humanos, fazemos parte de uma humanidade comum. As questões humanas, que pretendemos equacionar e intervir, estabelecer uma interface, são, antes de mais nada, questões humanas. A crise de transição para a pós-modernidade é formada de incertezas e de oportunidades. Nesse momento, o mais prático é uma boa teoria, e o mais concreto é uma Espiritualidade, como algo fundamental para a sanidade. Transcender é preciso.

09. Como pessoas, somos seres em permanente construção. Poderíamos a isso denominar de “espiritualidade como processo”. Crescemos em nossa dimensão cognitiva, na “renovação do nosso entendimento”. Somos peregrinos que necessitam de olhares retrospectivos, introspectivos, circundantes, prospectivos e transcendentes. Isso nos permite uma transformação interior profunda, de dentro e do alto, que denominamos de metanóia, ou conversão, e nos permite sempre um recomeço, Peregrinação que é mistério e aventura, vocação e missão. Os novos tempos, a chamada “pós-modernidade” está chegando de forma confusa, desordenada, contraditória, gerando perplexidade, temor, insegurança. A esses tempos – e a todos os tempos – propomos uma Espiritualidade Integral, que inclui uma prática de Adoração, sem cair no risco do misticismo alienante, uma prática de Reflexão, sem cair no risco da aridez do academicismo, e uma prática de Ação, sem cair no risco do mero ativismo. Conhecer – Discernir – Interceder – Intervir, integram essa Espiritualidade Integral.

10. Essa Espiritualidade Integral nos conduz a intervir na História, e intervir com valores. A Declaração de Jararabacoa, sobre Os Cristãos e a Ação Política, da Fraternidade Teológica Latinoamericana (FTL), nos chama a atenção como princípios fundamentais: o valor da pessoa humana, da verdade, da liberdade, da justiça, da paz, da solidariedade, da democracia, em seus aspectos políticos, econômicos e sociais. E afirma: “É possível, pois, considerar como natural que os homens que habitam um mesmo território possam soberanamente decidir sobre os assuntos que lhes cabem. Desse modo, todos os cidadãos tomam parte do Estado, com consequentes deveres e direitos. O governo é o conjunto das instituições que tornam possível a administração do Estado, exercendo um poder que lhe é delegado pelos cidadãos”.

11. A mesma Declaração relaciona esses princípios com bases teológicas:

1. A ordem política foi provida por Deus como um meio de ordenamento da vida em sociedade,
de tal modo que cada membro desta se realize plenamente em relação com Deus, com a criação, com seus semelhantes e consigo mesmo;

2. A autoridade política foi ordenada por Deus como meio de se preservar a vida em sociedade, mitigando os efeitos do egoísmo e pondo limites à violência social;

3. O Estado guarda relação com o propósito de redenção de Deus, já que tem a tarefa de criar um ambiente de tranquilidade e paz que torne possível a proclamação do Evangelho em palavra e ação;

4. Por sua vez, a expectativa escatológica da Igreja, torna relativo todo sistema econômico e toda forma de governo, pois qualquer sociedade, por muito que supere a que a precedeu, não é a pátria definitiva que os cristãos almejam,é apenas uma pátria temporal, que, no entanto, vem em plenitude com o Reino de Deus.

A Declaração prevê ações dos cristãos como indivíduos, das instituições eclesiásticas locais e nacionais, e de movimento e organizações civis inspiradas pelos valores cristãos, a afirma: “Como discípulos de Cristo, sentimos seu mandato de “ir por todo o mundo e fazer discípulos” contém, além da proclamação e como parte dela, o cumprimento de uma missão de encarnação e serviço. Nosso lugar é no mundo, onde devemos atuar como sal e luz”.

12. As pessoas são chamadas a viver a sua espiritualidade, como agentes de transformação histórica no tempo e no espaço, ou seja, em uma conjuntura. Com o término da Guerra Fria, a conjuntura internacional se assemelha àquela do término das Guerras Púnicas (Roma vs. Cartago), com uma (Des)Ordem Monopolar, em termos geopolíticos e militares, e oligopolar, em termos econômicos. Um determinismo (o Comunismo) foi derrotado por outro determinismo (o “fim da História” Liberal-Capitalista), quando “ideias únicas” tentam aprisionar os seres em uma História fechada. A re-abertura da História, a devolução do direito à esperança, à criatividade, à diferença e aos sonhos é tarefa prioritária para uma Espiritualidade Integral.

13. Há antigos e novos desafios mundiais des-humanizantes para as pessoas como cidadãos, e para os Estados como coletividades:

a) a multiplicidade de conflitos armados
inter e intra-nacionais, os refugiados, a fome, as doenças, em um mundo onde as mercadorias e o capital podem circular; as pessoas não.

b) o recrudescimento do extremismo religioso ameaçam a paz entre as nações e as liberdades públicas dentro das nações.

c) o Secularismo é a ideologia crescente no espaço euro-ocidental, oculto sobre o manto do Laicismo, expulsando as expressões religiosas da esfera pública, reduzindo-as a irrelevância das subjetividades ou ao espaço privado dos templos e dos lares.

d) O Hedonismo (“comamos e bebamos que amanhã morreremos”), individualista e não solidário, como materialismo prático, consumista, imediatista e usufruidor dos prazeres, é a filosofia hegemônica no Ocidente.

e) O Eco-Sistema que vem sendo degradado, ameaçando a terra como lar-comum da humanidade.

14. Ao nível da Pátria terrena, herdamos um país marcado pela exclusão, pelas desigualdades sociais e regionais, pelos privilégios, pela falta de ética, transparência e prestação de contas, em um longo processo cívico de superar os Donos do Poder por um Poder de Todos. Distorções em nosso sistema normativo ainda impedem a consolidação de uma democracia política, econômica e social, que é um alvo a ser perseguido pelos cidadãos responsáveis.

15. O Estado (ente jurídico e político) não existe dissociado da Sociedade (ente sociológico) que o compõe, com suas instituições, movimentos e relacionamentos. O ato jurídico não pode ser estanque ao fato social, e ambos, Estado e Sociedade não estão dissociados da Cultura (ente antropológico) e suas marcas caracterizadores da Nação e da Pátria, seus costumes e seus valores, inclusive aqueles historicamente relacionados à variável religiosa, portadora, essa, tantas vezes, de uma Ética de Revelação. É aqui que fazemos uma diferenciação entre o Laicismo, como separação formal entre Estado e Igreja, mas não como separação material entre Estado, Sociedade e Cultura, onde nos movemos, significativamente, como seres no mundo.

16. Sabemos que, ser político não é uma opção, é uma condição humana dos seres em sociedade, conscientes ou não, responsáveis ou não, na diversidade dos seus talentos, dons e vocações, possibilidades e oportunidades. Sua vivência é cotidiana, e não se resume à instituição partidária ou aos episódios eleitorais, a despeito da grande importância desses. Não se pode reclamar dos maus candidatos quando os bons não se candidatam, nem dos resultados dos pleitos diante da omissão ou da irresponsabilidade dos bons. Nesses momentos, a Nação pode crescer, quando as pessoas, em sua maturidade, em sua espiritualidade engajada, são capazes de crescer com ela. Não temos outra base senão seguir o conselho dos antigos místicos da Igreja: Ora et Labora!

São Paulo (SP), 13 de setembro de 2010.


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* Robinson Cavalcanti, bispo da Diocese do Recife – Comunhão Anglicana, cientista político, escritor e bispo anglicano, ex-assessor da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB), foi membro fundador e integrante da Comissão Executiva da Fraternidade Teológica Latinoamericana (FTL), da Comissão de Convocação e da Comissão de Continuação (LCWE) do Congresso de Lausanne, da Comissão Teológica da Aliança Evangélica Mundial (WEF) e da Comissão Executiva da Fraternidade Evangélica na Comunhão Anglicana (EFAC).

30 de ago. de 2010

As Crônicas de Nárnia [ A Última Batalha ]


O ídolo da nação vizinha era Tash, uma criatura grande e atemorizadora que caminhava como um homem, mas tinha a cabeça similar a de um abutre. Após a destruição final dos mundos, todos os personagens maus morreram. Mas Emeth, um dos fiéis servos do maligno Tash, termina na nova Nárnia celestial junto com os súditos leais de Aslam.

"Diga-nos quem é e o aconteceu com você", pergunta Jill, um humano 'salvo' que se reuniu com o rei Pedro, o rei Edmundo e a rainha Lúcia. Assim, Emeth inicia sua longa história: "... sempre, desde que era um menino, tenho servido a Tash, e meu grande desejo era conhecê-lo mais e mais... Mas o nome de Aslam eram odioso para mim." Ele então descreve os eventos da batalha final entre as forças do mal de Tash e os seguidores fiéis de Aslam. Finalmente, ele compartilha sua surpresa ao se encontrar no novo mundo — face a face com Aslam:



"O Glorioso abaixou sua cabeça dourada e tocou minha fronte com sua língua e disse: 'Filho, você é bem-vindo.' Mas eu disse: 'Desculpe-me, Senhor, não sou seu filho, sirvo a Tash.' Ele respondeu: 'Filho, todo o serviço que você fez a Tash, conto como um serviço feito a mim...'

"Superei meu temor e questionei o Glorioso dizendo: 'Senhor, é então verdade... que o senhor e Tash são um?'

'O leão rugiu para que a terra tremesse (mas sua ira não era contra mim) e disse: 'É falso. Não por que ele e eu somos um, mas por que nós somos opostos, tomo para mim os serviços que você fez para ele. Por que eu e ele somos de tipos tão diferentes que nenhum serviço que é vil pode ser feito por mim, e nenhum que não é vil pode ser feito por ele. Portanto, se qualquer homem jurar por Tash e mantiver seu juramento, é por mim que ele verdadeiramente jurou, embora não saiba disso, e sou eu quem o recompenso.'

"Mas eu também disse: 'Mas eu tenho buscado Tash durante todos os meus dias.'

'Amado, disse o Glorioso, a não ser que o seu desejo tenha sido por mim, você não teria buscado por tanto tempo e de forma tão verdadeira. Porque todos encontram aquilo que verdadeiramente procuram."


Lion : Então... Entendeu o que o texto sugere? Diz ai nos comentários.

30 de jul. de 2010

Zumbis Filosóficos Piedosos

Por Marco Alcantara

Só de mencionar a palavra zumbi imaginamos aquelas criaturas famintas por cérebros no melhor estilo criado por George Romero e visto no fabuloso filme Madrugada dos Mortos (o original claro) que assisti três vezes. =D

Mas o zumbi filosófico ou p-zombie como também é conhecido é um ser hipotético, ou seja, um ser idêntico ao ser humano normal se não fosse pela inexistência da experiência consciente. Imagina-se que quando um zumbi filosófico sinta dor ele realmente não a sente apenas reage pela ação da causa. Essa é uma reação inconsciente e somente casual.

O argumento dos zumbis surgiu em 1974 em um artigo de Robert Kirk, mas foi com o livro The Conscious Mind (1996), de David Chalmers, que ele ganha um papel de destaque dentro da filosofia da mente.

Existem indivíduos que se tornaram perfeitos zumbis, isso ocorre pelo fato de aprenderem algo de outro, e tomarem esse algo como uma verdade motivadora, automática e única, assim sendo é indiscutível os termos dessa verdade. Vêem que aquilo é “tão certo” e “confiável” que perderam a vontade própria ou a consciência para agir por si mesmos e assim agem através de um adestramento ou condicionamento mental.

Imagine uma pessoa fazendo algo sem amor, sem paixão ou simplesmente sem alma. Tomando atitudes por que simplesmente disseram que era assim e pronto. Não existe nada de bom ou correto nisso. Fazer qualquer coisa unicamente para sentir o “dever cumprido” não é bom, ou fazer o bem para o bem próprio ou mesmo para que outros te aplaudam. É também um modo de agir bem abrangendo o mal.

Como um zumbi sem consciência estes outros seres condicionados pelas recomendações de outros só tem as reações casuais. Se fizerem alguma coisa boa será somente dentro do mesmo patamar de outros zumbis, e nunca será nada surpreendente, novo e apaixonante de se ver, pois não existe amor nisso ou consciência do que se está fazendo.

"Dentro das religiões existe uma bondade enlatada, mascarada e tacanha."

Nossos atos e os resultados destes atos, os feitos, nos revelam o que somos, fazem aparecer ao observador nossa "natureza", nossa maneira de ser. Tal expressão nos reduz àquilo que somos de fato. Se nos nossos atos existe paixão, amor e graça de verdade não aquilo que é transmitido, ensinado ou orquestrado por outras pessoas, os que nos observam em todo canto sentirão isso e nisso terão dentro deles o efeito e a causa da mesma paixão, do mesmo amor e da mesma graça.

Que venhamos a ter uma vontade de refletir sobre o que fazemos mesmo que a principio para nós mesmos e para todo mundo esse ato seja bom. Caso contrário seremos zumbis, autômatos, alienados, condicionados e burocráticos com a nossa vida e as vidas carentes do nosso melhor.

A consciência é o órgão pelo qual o homem tem contato com o mundo exterior, com o mundo interior e principalmente têm consciência de si mesmo como ser humano capaz de decidir, por si, seus atos.

"Se fugirmos deste princípio natural de viver, seremos anormais em nossa forma de agir, seremos contrários à nossa natureza regenerada, ou seja, o novo homem que habita em nós se move através de uma consciência livre de regras, dogmas e leis humanas que só servem para gerar morte."

E agindo pelas regras, dogmas e leis humanas seremos zumbis piedosos geradores de morte. Iguais ao filme viveremos na fixação de cumprir as nossas obrigações morais no lugar de comer miolos.

12 de abr. de 2010

Solidão e Comunhão Não Carola


A comunhão carola e contemplativa não permite a ninguém que abra seu armário e exponha seus deslizes mais particulares e execráveis.


Sendo assim, é fácil optar preservar o armário e estar definitivamente sozinho com ele. Se caso decidir abri-lo e professar falhas se perpetuara uma solidão ainda maior diante dos santos de expressões mentirosas.

Os momentos de adoração que aparenta procurar um efeito prosaico, a oração comunitária e toda comunhão no ofício ainda parecem ser períodos de solidão íntima no ambiente dos companheiros.
Falta esperança de reviravolta neste tipo de comunhão, pois só experimentamos a comunhão como cristãos carolas e encaixados em nosso ambiente garantido e nunca experimentamos a comunhão como cristãos não carolas errôneos e carentes de sermos ouvidos.

É muita ousadia se declarar perverso, pois os semblantes carolas se vestiriam de odiosidade com a descoberta de um abominável sujeito em meio aos lícitos de justiça cômoda e própria.

O infeliz fato é que os ossos continuam lá no armário e logo não terá mais espaço. Nos domingos de manhã podemos todos juntos apenas fingir acreditar no pesar dos nossos erros e permanecer fingindo acreditar no perdão em um processo de cínico remorso e cínica beatitude.

O medo da justiça própria entre as pessoas não atrai ninguém a se mostrar como realmente é. Mas o isolamento na fortaleza das próprias convicções, racionalismos e temores às vezes nos tornam incapazes de enxergar que talvez nós não sejamos tão diferentes de alguém com justiça própria quanto gostaríamos.
Porém existem outros solitários, trepidantes e desconfiados tão igualmente solidários a comunhão não carola querendo repartir com experiência e confessar fracassos e desventuras. Estes comungam livremente de suas derrotas com quem quer que seja para depois rirem juntos de todas elas. Excepcionalmente os imperfeitos entenderão os destroços confessos por experimentar dos mesmos desastres.


Afortunados são os imperfeitos que comungam nos desgostos e que podem se confessar uns aos outros sem receio na comunhão não carola.

Ao contrário disso viveríamos em um trancado e sufocante solipsismo, buscando uma realidade única com o próprio eu e de que apenas as próprias experiências defeituosas são autênticas.

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