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16 de fev. de 2012

Dica de Leitura: “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”




Quando estiver em Minas Gerais, aproveite para conhecer a obra sacra de Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como Aleijadinho. Vale lembrar que esse homem, portador de deficiências terríveis, que o faziam andar de joelhos e esculpir escondido, para esconder suas chagas, praticamente um monstro, superou tudo isso e criou uma obra marcante. Ah, vale lembrar também que ele nunca existiu. É um produto de ficção de um historiador picareta.
Os maiores assassinos de índios brasileiros eram os próprios índios; e eram, sobretudo, genocidas, promovendo faxinas étnicas tribais. Além disso, tribos beligerantes aliaram-se aos europeus para matar os inimigos. Quem? Ora, outras tribos, outros índios. E os silvícolas nunca tiveram a menor noção de ecologia ou preservação florestal, coisa que aprenderam com os portugueses, de quem pegaram algumas doenças e pra quem passaram tantas outras. A aliança de algumas tribos e portugueses serve para ilustrar a premissa. Imaginem naus repletas de homens fracos e doentes. Na praia, milhares de guerreiros. Embora tudo esteja fundamentado em estudos e documentos, a lógica nos ajuda a compreender a obviedade da aliança – e também a história de guerras constantes entre as tribos. Para um tupi, o português era tão estrangeiro quanto um caiapó.

22 de ago. de 2011

Etiqueta nas redes sociais: saiba como se comportar


Cuidado para não perder a cabeça (Foto: Reprodução) Ter uma vida social na Internet é como ter uma vida social no mundo real. E para uma boa convivência, é preciso que algumas condutas sejam ao menos observadas, mesmo que não seguidas completamente à risca, de acordo com a consciência de cada indivíduo.
 
Não perca a cabeça
Tudo depende, muito, do objetivo da sua presença na rede social. Se você quer ter muitos seguidores e mantê-los, talvez precise se adequar a algumas normas de etiqueta. Mas, basicamente, dá para dizer que só existe uma grande regra: a do bom senso. E ater-se a ela é o suficiente para que você consiga ter uma boa convivência.

Procrastinar na internet aumenta a produtividade




Se está lendo isso no trabalho, pode fazê-lo sem culpa: você não está perdendo tempo, está aumentando a sua produtividade. É, agradece a gente: achamos um estudo devidamente científico para salvar a sua pele na próxima vez em que seu chefe pegar você fuçando a vida alheia no Facebook, batendo papo no Twitter ou, bem, lendo o CIÊNCIA MALUCA.


19 de ago. de 2011

36 argumentos para a existência de Deus. Ou contra...

Rebecca Goldstein: "Ateus e religiosos concordam mais sobre o mundo do que imaginam"Em entrevista ao site de VEJA, a "ateia com alma" Rebecca Goldstein critica o radicalismo de crentes e descrentes e comenta seu novo livro, uma saborosa "cilada" para os fanáticos de ambos os lados

Marco Túlio Pires
"Os ateus têm que acabar com o pedantismo. Eles não têm que ensinar como as pessoas religiosas devem pensar"
"As pessoas religiosas têm que parar de pensar que ateus são imorais e não sabem a diferença entre o bem e o mal, o certo e o errado"
Uma ateia em missão de paz. É assim que Rebecca Goldstein, doutora em filosofia pela Universidade de Princeton e pesquisadora na área de psicologia em Harvard (EUA), se posiciona nas discussões, sempre acaloradas, entre ateus e religiosos.
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18 de ago. de 2011

Especialista em cibercultura, o francês Pierre Lévy critica intenção inglesa de controlar redes sociais e fala sobre o futuro dos livros

Clleber Passus / Fronteiras do Pensamento - 14 de Agosto de 2007.  Foto Divulgação Há 20 anos, quando a maioria da população do mundo não tinha a menor ideia do que era a internet, o filósofo francês Pierre Lévy já estava de olho no futuro, com seus estudos sobre cibercultura e inteligência coletiva. Hoje, Lévy é uma referência, um estudioso cujas pesquisas ajudaram no desenvolvimento de ferramentas fundamentais para muitos de seus críticos do passado - entre eles, um bom número de jornalistas -, como a Wikipedia e as redes sociais. 

9 de ago. de 2011

A busca de Isaac Newton por 'código da Bíblia' sobre o fim do mundo

  Por Reinaldo José Lopes Do G1

Pai da física moderna realizou estudo detalhado do livro do profeta Daniel e do Apocalipse. Cientista relacionava profecias com história política e religiosa da Europa até sua época.

Um livro que ajuda a revelar um lado surpreendente de Isaac Newton (1643-1727), pai da física moderna e responsável por formular a lei da gravidade, entre outras realizações científicas fundamentais. Nas horas vagas (ou, para ser mais exato, na maior parte do tempo durante sua maturidade), Newton se dedicava a um estudo detalhado, ponto por ponto, dos escritos atribuídos ao profeta Daniel e do Apocalipse, os dois livros bíblicos que mais versam sobre o fim do mundo. Para o cientista britânico, as duas obras eram guias precisos para a história do mundo até sua época e continham a chave para desvendar o que aconteceria no final dos tempos.

10 de mai. de 2011

Celebrando a Graça Criacional da Arte

Hans Rookmaaker: Celebrando a Graça Criacional da Arte
Dr. Taylor Worley é Professor Adjunto de Pensamento e Tradição Cristãos e Reitor Adjunto para Vida Espiritual na Union University.


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Francis Schaeffer talvez seja o nome mais comumente associado com a tradição neocalvinista e o engajamento cultural. Mas o comentário de Schaeffer sobre arte e cultura jamais teria alcançado o nível de influência ou respeito que alcançou sem a inestimável percepção artístico-histórica-cultural e a amizade de Hans Rookmaaker. Além de ter sido um contínuo recurso para o movimento L’Abri, Rookmaaker se mostrou indispensável para o mais amplo projeto de engajamento do cristianismo com os corações. Seu treinamento como historiador de arte e a rigorosa percepção de seu trabalho conferiram credibilidade ao projeto de Schaeffer, o qual teria sido prejudicado grandemente sem ele. Essa influência continua até hoje através do impacto de seu livro A Arte Moderna e a Morte de uma Cultura, uma obra altamente influente e bem-sucedida em termos de vendas e que tem sido um guia por gerações.

Nesse livro, Rookmaaker faz uma corajosa afirmação da arte como parte integral da criação de Deus. Seguindo as vozes seminais do pensamento neocalvinista, ele reconhece que Deus governa e sustenta toda a criação através de ordenanças divinas; ele afirma que cada esfera da vida tem seu próprio conjunto de ordenanças e possui uma soberania que não deve ser violada pela soberania de outra esfera. Devido a essa graça criacional, Rookmaaker insistia que “a arte não precisa de justificativa.”

Assim, a arte deve abrir os olhos das pessoas, ou servir como decoração, ou louvor, ou ter uma função social, ou expressar uma filosofia em particular. A arte não precisa de desculpas. Ela possui seu próprio significado que não precisa ser explicado, assim como o casamento ou o próprio ser humano, ou a existência de um pássaro ou flor ou montanha ou mar ou estrela. Todos eles detém um significado porque Deus os criou. Seu significado é que foram criados por Deus e são por Ele sustentados. Assim, a arte tem sentido como arte porque Deus considerou bom dar arte e beleza à humanidade. [1]

A celebração da graça criacional da arte por Rookmaaker deriva de sua alegria, não de seu desprezo, pelos detalhes artístico-históricos de uma obra. Dessa forma, ele representa uma voz singular no importante diálogo entre o cristianismo e as artes. De maneira específica, sua fé na graça criacional da arte significou muito para gerações inteiras de cristãos em busca de um valor fundamental com o qual embasar seu apreço pelas artes.

Juntamente com outra linha dominante da reflexão cristã sobre a arte moderna, a natureza distinta da abordagem de Rookmaaker entra em foco. Paul Tillich e outros importantes herdeiros de seu legado também deram atenção a figuras-chaves na arte moderna, mas sua abordagem dessas obras demonstra uma perspectiva muito diferente da de Rookmaaker. Na abordagem da Tillich à uma teologia da cultura, o “método de correlação” busca identificar os impulsos religiosos de uma forma de cultura e abordar esses impulsos em seus próprios termos. Infelizmente, essa abordagem frequentemente resultou na embaraçosa prática de Tillich de incluir suas visões existencialistas em uma obra de arte, como no caso de seus comentários sobre Guernica de Picasso.[2] Se por um lado Tillich buscou estabelecer um suposto espaço neutro para a consideração das obras de arte, a visão de Rookmaaker não tinha lugar para essas ilusões. Seu profundo compromisso com a graça criacional da arte significava que Rookmaaker jamais poderia divorciar a apreciação estética de uma obra da sua afirmação básica ou negação da glória de Deus na criação. Enquanto esse compromisso na maioria das vezes gerava uma tendência em Schaeffer à pronta crítica de obras de arte não-cristãs, a profunda apreciação de Rookmaaker pela arte de obras claramente antagônicas ao cristianismo serviam como um corretivo sutil à atitude áspera de seus colegas. Mesmo em A Arte Moderna e a Morte de uma Cultura, ele consegue discutir obras de valor religioso conflitantes com impressionante mutualidade.

Dessa forma, Rookmaaker foi prova viva – um exemplo muito presente – do que o neocalvinismo buscava na nova geração, notadamente, um cristão que desejasse tanto pensar rigorosamente quanto cristãmente sobre o campo primário da cultura em que viviam. Seus interesses e obra se expandiram além da arte visual para várias outras esferas culturais; isso é bem representado na maravilhosa edição de seis volumes de sua obra completa, compilada por sua filha Marleen Hengelaar-Rookmaaker. [3] Seu exemplo preparou o caminho para essa próxima geração: Calvin Seerveld, Nicholas Wolterstorff, William Dyrness, Adrienne Chaplin, Jeremy Begbie, Makoto Fujimara e Daniel Siedell – junto com as importantes vozes que escrevem essa série de artigos online – de alguma forma reconhecem a influência generativa que Rookmaaker teve sobre suas carreiras no engajamento cristão com os corações.

De muitas maneiras, o legado de qualquer pensador pode ser medido pelas opções que essa pessoa oferece àqueles que virão depois, e muitas avenidas de exploração reflexiva nas artes foram abertas para nós através do trabalho de Hans Rookmaaker.

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[1] H. R. Rookmaaker, Modern Art and the Death of a Culture, 2nd ed. (Londres: Inter-Varsity Press, 1973), 229-30.
[2] Cf. “Masterpieces of Religious Art” in Paul Tillich, Jane Dillenberger, e John Dillenberger, On Art and Architecture (Nova Iorque: Crossroad, 1987), 233.
[3] Hans R. Rookmaaker e Marleen Hengelaar-Rookmaaker ed., The Complete Works of Hans Rookmaaker, 6 Vols. (Carlisle: Piquant, 2002)


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Traduzido a partir do original em inglês por Fernando Guarany Jr [Coordenador de Traduções e Membro da L'Abrarte] .

6 de mai. de 2011

Espiritualidade e Consciência Política

Por Bispo Robinson Cavalcanti (*)

Palestra proferida no Fórum Cristão de Profissionais, na noite do dia 13.09.2010, na Igreja Batista de Água Branca (SP)

01. O século XX nos legou duas concepções inadequadas sobre o ser humano. A primeira foi o totalitarismo: nela não há um valor do ser em si, mas a individualidade é dissolvida no todo abrangente e asfixiante. O todo do Estado, dominado pelo aparelho burocrático do partido único, sem limites, e que tudo pode, eliminando-se, radicalmente, quaisquer diferenças entre a esfera pública e a esfera privada, com a inexistência dos direitos civis e das liberdades públicas. A complexidade humana sucumbia ao devaneio de uma “idade de ouro” ao final do processo. O ser no totalitarismo é um não ser. Uma segunda foi a do individualismo, com uma ideologia de um conceito do ser como indivíduo. O individualismo, com um ser ensimesmado, egocentrado, nos reconduz a um estado de natureza marcado por um “darwinismo social”, pela sobrevivência do mais forte, do mais apto. Individualismo que aliena da natureza, do próximo e de si mesmo, e que conduz ao hedonismo consumista e imediatista, com os outros seres vistos como objetos.

02. O Totalitarismo e o Individualismo não são apenas concepções inadequadas e antiéticas, mas têm como pano de fundo a Modernidade, com uma antropologia otimista, crente no mito da bondade natural dos seres, na negação das ambiguidades, onde o negativo está fora de nós, no outro ou no sistema, no mito do progresso, onde o “homem bom” atingiria uma “terra sem males”, no mito da Razão ou da Ciência, como recursos ilimitados para esse fim, crente nesse “fim da História”, que é o mito das Utopias Globais. O fim da Modernidade tem passado pelo descrédito desses quatro mitos.

03. O ocaso da Modernidade não nos tem livrado da tentação totalitária, inclusive o totalitarismo do individualismo. Esse ocaso trouxe um cansaço do ser, que não encontra respostas nem dentro de si, nem fora de si. Se redescobre, dolorosamente, as limitações, as ambiguidades e a maldade, enquanto buscamos para a vida um significado e um propósito existencial. Uma questão adicional ao Totalitarismo e ao Individualismo é o materialismo. Como humanos somos seres materiais, pois não somos imateriais ou metafísicos, mas a materialidade não esgota a natureza do ser. As diversas expressões de materialismo são simplistas e reducionistas. Os humanismos antropocêntricos não conseguem escapar das amarras limitadoras do materialismo, e esses não respondem às perguntas básicas do ser sobre o ser, nem produzem as condições subjetivas ou objetivas para o que denominamos comumente como “felicidade”.

04. Do século passado não recebemos apenas os legados inadequados do Totalitarismo e do Individualismo. Os humanismos não-antropocêntricos, mas teocêntricos, não materialistas, mas espiritualistas – particularmente na tradição judaico-cristã – procuraram construir uma alternativa para descrever o ser, nem como peça, nem como átomo, mas como pessoa. O conceito de pessoa assume a complexidade do ser, sua multidimensionalidade, suas relações, seus valores. Um ser que é, ontologicamente, igual a todos os seres, mas que é, ao mesmo tempo, cada um, singular, único. A pessoa é alguém que tem consciência do ser em si, mas também do ser para o outro, da sua humanidade, da sua singularidade, das suas potencialidades e possibilidades, das suas limitações, dos seus direitos e deveres, da sua ambiguidade moral, com sua tensão entre o bem e o mal, entre o desejo e a realização, a construção e a destruição, os sentimentos altruístas e solidários e os sentimentos egoístas e destrutivos. A pessoa se percebe como parte e co-responsável pela natureza, pelo todo da criação, e pela necessidade da vida em sociedade, pelo eu-tu: com a Divindade, o outro e o todo, e pelo eu-eu do autoconhecimento sincero e realista.

05. Corpo, mente, alma, sentimentos, relacionamentos, valores, humanidade, uma imanência iluminada pela transcendência, uma vida iluminada pela consciência da morte e esperança da eternidade. Essa herança de correntes filosóficas como o Personalismo, o Solidarismo, do Humanismo Integral, e de correntes psicoterapêuticas como a Terapia Centrada na Pessoa. Pessoa que procura se autoconhecer e conhecer o outro, que alimenta aspirações, sonhos, projetos, que afirma convicções, que se realiza e valoriza as instâncias sociais intermediárias entre ele e o Estado: a família, a vizinhança, a comunidade, o círculo de amigos, o trabalho, o lazer, as instituições religiosas, os movimentos sociais, na diversidade de papéis e na riqueza de relacionamentos. A pessoa se constrói como ser solidário, que sonha com uma sociedade solidária.

06. A complexa e concreta humanidade, portanto, não se move sem uma espiritualidade. Estética e Ética estão além da materialidade. A beleza, os sentimentos, os valores e a fé integram a rica dimensão do espiritual que necessitamos cultivar para sermos mais plenos e mais humanos. O ser humano, transformado pela sociedade urbano-industrial, em um mero homo faber, destinado ao trabalho, ao ganho e ao gasto, percebe o vazio, a alienação de sua condição humana. Redescobre, então, o valor do lazer, o homo ludens, a realização do não-fazer, do apenas ser, percebendo que na narrativa da Criação, Deus, no sétimo dia, “descansou”. Redescoberta do valor do repouso, do silêncio, da meditação, da contemplação, do prazer (inclusive erótico), do olhar estético e nada mais. Redescobre o prazer de pensar em si, a vida, a criação, o outro, a alegria, o amor, o voltar-se para a transcendência, a imaterialidade, a divindade. A pessoa se realiza terapeuticamente. Viver a pessoa como um processo permanente de cura, e como instrumento de cura para o todo da Criação, da qual ele faz parte e a qual ele é responsável.

07. O homo ludens descobre a arte de amar nas ações comunitárias, na alteridade da presença confortadora e apoiadora junto aos que sofrem, nos atos coletivos que almejam a superação de privações e a promoção do bem-comum, no exercício responsável da cidadania, nos órgãos de classe, nos clubes de serviço, nos partidos políticos, crendo na possibilidade de reconstruir o mundo, crescendo a nossa humanidade no crescimento da consciência e na vivência de valores. O mundo do trabalho não deveria ser condicionado pelo mundo do não-trabalho, onde construímos o nosso ser, e emprestamos sentido ao conjunto da existência, inclusive ao mundo do trabalho? A esse projeto de vida abrangente poderíamos denominar de Espiritualidade, e a necessidade de uma Espiritualidade é algo inato ao ser, à condição humana, e nos mutilamos e nos frustramos quando não a exercitamos. Espiritualidade que inclui riso e choro, dor e prazer, vida e morte, limites e superação de limites.

08. A concretude da vida humana complexa é iluminada a partir de uma teleologia, das descobertas de um sentido último, profundo, abrangente, que vai além do material, da rotina, do aqui e do agora que nos aprisionam; que vai além do ter, conhecendo o ser e o seu sentido último. A crise do materialismo foi a crise de um vazio, de uma parcialização, de uma mutilação, de uma incompletude. O lugar do sagrado não é um dado meramente cultural, mas uma necessidade existencial. Por isso os analistas falam hoje de um “reencantamento do mundo”, em uma “volta do sagrado e ao sagrado”. Como profissionais somos antes de tudo seres humanos, fazemos parte de uma humanidade comum. As questões humanas, que pretendemos equacionar e intervir, estabelecer uma interface, são, antes de mais nada, questões humanas. A crise de transição para a pós-modernidade é formada de incertezas e de oportunidades. Nesse momento, o mais prático é uma boa teoria, e o mais concreto é uma Espiritualidade, como algo fundamental para a sanidade. Transcender é preciso.

09. Como pessoas, somos seres em permanente construção. Poderíamos a isso denominar de “espiritualidade como processo”. Crescemos em nossa dimensão cognitiva, na “renovação do nosso entendimento”. Somos peregrinos que necessitam de olhares retrospectivos, introspectivos, circundantes, prospectivos e transcendentes. Isso nos permite uma transformação interior profunda, de dentro e do alto, que denominamos de metanóia, ou conversão, e nos permite sempre um recomeço, Peregrinação que é mistério e aventura, vocação e missão. Os novos tempos, a chamada “pós-modernidade” está chegando de forma confusa, desordenada, contraditória, gerando perplexidade, temor, insegurança. A esses tempos – e a todos os tempos – propomos uma Espiritualidade Integral, que inclui uma prática de Adoração, sem cair no risco do misticismo alienante, uma prática de Reflexão, sem cair no risco da aridez do academicismo, e uma prática de Ação, sem cair no risco do mero ativismo. Conhecer – Discernir – Interceder – Intervir, integram essa Espiritualidade Integral.

10. Essa Espiritualidade Integral nos conduz a intervir na História, e intervir com valores. A Declaração de Jararabacoa, sobre Os Cristãos e a Ação Política, da Fraternidade Teológica Latinoamericana (FTL), nos chama a atenção como princípios fundamentais: o valor da pessoa humana, da verdade, da liberdade, da justiça, da paz, da solidariedade, da democracia, em seus aspectos políticos, econômicos e sociais. E afirma: “É possível, pois, considerar como natural que os homens que habitam um mesmo território possam soberanamente decidir sobre os assuntos que lhes cabem. Desse modo, todos os cidadãos tomam parte do Estado, com consequentes deveres e direitos. O governo é o conjunto das instituições que tornam possível a administração do Estado, exercendo um poder que lhe é delegado pelos cidadãos”.

11. A mesma Declaração relaciona esses princípios com bases teológicas:

1. A ordem política foi provida por Deus como um meio de ordenamento da vida em sociedade,
de tal modo que cada membro desta se realize plenamente em relação com Deus, com a criação, com seus semelhantes e consigo mesmo;

2. A autoridade política foi ordenada por Deus como meio de se preservar a vida em sociedade, mitigando os efeitos do egoísmo e pondo limites à violência social;

3. O Estado guarda relação com o propósito de redenção de Deus, já que tem a tarefa de criar um ambiente de tranquilidade e paz que torne possível a proclamação do Evangelho em palavra e ação;

4. Por sua vez, a expectativa escatológica da Igreja, torna relativo todo sistema econômico e toda forma de governo, pois qualquer sociedade, por muito que supere a que a precedeu, não é a pátria definitiva que os cristãos almejam,é apenas uma pátria temporal, que, no entanto, vem em plenitude com o Reino de Deus.

A Declaração prevê ações dos cristãos como indivíduos, das instituições eclesiásticas locais e nacionais, e de movimento e organizações civis inspiradas pelos valores cristãos, a afirma: “Como discípulos de Cristo, sentimos seu mandato de “ir por todo o mundo e fazer discípulos” contém, além da proclamação e como parte dela, o cumprimento de uma missão de encarnação e serviço. Nosso lugar é no mundo, onde devemos atuar como sal e luz”.

12. As pessoas são chamadas a viver a sua espiritualidade, como agentes de transformação histórica no tempo e no espaço, ou seja, em uma conjuntura. Com o término da Guerra Fria, a conjuntura internacional se assemelha àquela do término das Guerras Púnicas (Roma vs. Cartago), com uma (Des)Ordem Monopolar, em termos geopolíticos e militares, e oligopolar, em termos econômicos. Um determinismo (o Comunismo) foi derrotado por outro determinismo (o “fim da História” Liberal-Capitalista), quando “ideias únicas” tentam aprisionar os seres em uma História fechada. A re-abertura da História, a devolução do direito à esperança, à criatividade, à diferença e aos sonhos é tarefa prioritária para uma Espiritualidade Integral.

13. Há antigos e novos desafios mundiais des-humanizantes para as pessoas como cidadãos, e para os Estados como coletividades:

a) a multiplicidade de conflitos armados
inter e intra-nacionais, os refugiados, a fome, as doenças, em um mundo onde as mercadorias e o capital podem circular; as pessoas não.

b) o recrudescimento do extremismo religioso ameaçam a paz entre as nações e as liberdades públicas dentro das nações.

c) o Secularismo é a ideologia crescente no espaço euro-ocidental, oculto sobre o manto do Laicismo, expulsando as expressões religiosas da esfera pública, reduzindo-as a irrelevância das subjetividades ou ao espaço privado dos templos e dos lares.

d) O Hedonismo (“comamos e bebamos que amanhã morreremos”), individualista e não solidário, como materialismo prático, consumista, imediatista e usufruidor dos prazeres, é a filosofia hegemônica no Ocidente.

e) O Eco-Sistema que vem sendo degradado, ameaçando a terra como lar-comum da humanidade.

14. Ao nível da Pátria terrena, herdamos um país marcado pela exclusão, pelas desigualdades sociais e regionais, pelos privilégios, pela falta de ética, transparência e prestação de contas, em um longo processo cívico de superar os Donos do Poder por um Poder de Todos. Distorções em nosso sistema normativo ainda impedem a consolidação de uma democracia política, econômica e social, que é um alvo a ser perseguido pelos cidadãos responsáveis.

15. O Estado (ente jurídico e político) não existe dissociado da Sociedade (ente sociológico) que o compõe, com suas instituições, movimentos e relacionamentos. O ato jurídico não pode ser estanque ao fato social, e ambos, Estado e Sociedade não estão dissociados da Cultura (ente antropológico) e suas marcas caracterizadores da Nação e da Pátria, seus costumes e seus valores, inclusive aqueles historicamente relacionados à variável religiosa, portadora, essa, tantas vezes, de uma Ética de Revelação. É aqui que fazemos uma diferenciação entre o Laicismo, como separação formal entre Estado e Igreja, mas não como separação material entre Estado, Sociedade e Cultura, onde nos movemos, significativamente, como seres no mundo.

16. Sabemos que, ser político não é uma opção, é uma condição humana dos seres em sociedade, conscientes ou não, responsáveis ou não, na diversidade dos seus talentos, dons e vocações, possibilidades e oportunidades. Sua vivência é cotidiana, e não se resume à instituição partidária ou aos episódios eleitorais, a despeito da grande importância desses. Não se pode reclamar dos maus candidatos quando os bons não se candidatam, nem dos resultados dos pleitos diante da omissão ou da irresponsabilidade dos bons. Nesses momentos, a Nação pode crescer, quando as pessoas, em sua maturidade, em sua espiritualidade engajada, são capazes de crescer com ela. Não temos outra base senão seguir o conselho dos antigos místicos da Igreja: Ora et Labora!

São Paulo (SP), 13 de setembro de 2010.


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* Robinson Cavalcanti, bispo da Diocese do Recife – Comunhão Anglicana, cientista político, escritor e bispo anglicano, ex-assessor da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB), foi membro fundador e integrante da Comissão Executiva da Fraternidade Teológica Latinoamericana (FTL), da Comissão de Convocação e da Comissão de Continuação (LCWE) do Congresso de Lausanne, da Comissão Teológica da Aliança Evangélica Mundial (WEF) e da Comissão Executiva da Fraternidade Evangélica na Comunhão Anglicana (EFAC).

30 de jul. de 2010

Zumbis Filosóficos Piedosos

Por Marco Alcantara

Só de mencionar a palavra zumbi imaginamos aquelas criaturas famintas por cérebros no melhor estilo criado por George Romero e visto no fabuloso filme Madrugada dos Mortos (o original claro) que assisti três vezes. =D

Mas o zumbi filosófico ou p-zombie como também é conhecido é um ser hipotético, ou seja, um ser idêntico ao ser humano normal se não fosse pela inexistência da experiência consciente. Imagina-se que quando um zumbi filosófico sinta dor ele realmente não a sente apenas reage pela ação da causa. Essa é uma reação inconsciente e somente casual.

O argumento dos zumbis surgiu em 1974 em um artigo de Robert Kirk, mas foi com o livro The Conscious Mind (1996), de David Chalmers, que ele ganha um papel de destaque dentro da filosofia da mente.

Existem indivíduos que se tornaram perfeitos zumbis, isso ocorre pelo fato de aprenderem algo de outro, e tomarem esse algo como uma verdade motivadora, automática e única, assim sendo é indiscutível os termos dessa verdade. Vêem que aquilo é “tão certo” e “confiável” que perderam a vontade própria ou a consciência para agir por si mesmos e assim agem através de um adestramento ou condicionamento mental.

Imagine uma pessoa fazendo algo sem amor, sem paixão ou simplesmente sem alma. Tomando atitudes por que simplesmente disseram que era assim e pronto. Não existe nada de bom ou correto nisso. Fazer qualquer coisa unicamente para sentir o “dever cumprido” não é bom, ou fazer o bem para o bem próprio ou mesmo para que outros te aplaudam. É também um modo de agir bem abrangendo o mal.

Como um zumbi sem consciência estes outros seres condicionados pelas recomendações de outros só tem as reações casuais. Se fizerem alguma coisa boa será somente dentro do mesmo patamar de outros zumbis, e nunca será nada surpreendente, novo e apaixonante de se ver, pois não existe amor nisso ou consciência do que se está fazendo.

"Dentro das religiões existe uma bondade enlatada, mascarada e tacanha."

Nossos atos e os resultados destes atos, os feitos, nos revelam o que somos, fazem aparecer ao observador nossa "natureza", nossa maneira de ser. Tal expressão nos reduz àquilo que somos de fato. Se nos nossos atos existe paixão, amor e graça de verdade não aquilo que é transmitido, ensinado ou orquestrado por outras pessoas, os que nos observam em todo canto sentirão isso e nisso terão dentro deles o efeito e a causa da mesma paixão, do mesmo amor e da mesma graça.

Que venhamos a ter uma vontade de refletir sobre o que fazemos mesmo que a principio para nós mesmos e para todo mundo esse ato seja bom. Caso contrário seremos zumbis, autômatos, alienados, condicionados e burocráticos com a nossa vida e as vidas carentes do nosso melhor.

A consciência é o órgão pelo qual o homem tem contato com o mundo exterior, com o mundo interior e principalmente têm consciência de si mesmo como ser humano capaz de decidir, por si, seus atos.

"Se fugirmos deste princípio natural de viver, seremos anormais em nossa forma de agir, seremos contrários à nossa natureza regenerada, ou seja, o novo homem que habita em nós se move através de uma consciência livre de regras, dogmas e leis humanas que só servem para gerar morte."

E agindo pelas regras, dogmas e leis humanas seremos zumbis piedosos geradores de morte. Iguais ao filme viveremos na fixação de cumprir as nossas obrigações morais no lugar de comer miolos.

21 de mai. de 2010

Fé Raciocinada

Disseram-me que para ter fé é preciso abrir mão da inteligência e simplesmente não concordo e nunca vou concordar, pois entendo que crer é um ato pensado (ou pelo menos deveria ser).

Para ter fé não creio que eu deva me desconectar do meu intelecto até o ponto de entrar em transe ou simplesmente abrir mão de qualquer conhecimento que exista no mundo seja ele filosófico, teológico ou proveniente de uma ciência exata qualquer.

Fé é a busca da racionalidade entre coisas que não se vê, mas são conscientes e ponderáveis bem diferentes da loucura, emoção e comoção. E até mesmo alienação.

Mas quem prega a não-inteligência da cristandade prega também as loucuras em nome de Deus e o achismo como revelação espiritual.

Nisso ocasiona-se a morte espiritual de toda uma nação e a fé idiotizante impera. E com isso muitos se protegem da ciência pregando a desinformação como arma apologética.

Mistificamos a ciência e tentamos dar a fé ares de pseudociência para nos sentirmos protegidos de toda linha cientifica, que segundo as “vítimas cristãs” contradiz a bíblia.

Adotamos o criacionismo científico que fugiu da ciência faz tempo e abraçou a especulação sem ter vergonha de cair no ridículo.
Parece que muitos pregam a “ciênciofobia” enquanto do outro lado da moeda existe a “religiofobia”.

Onde foram parar os dinossauros? A ciência explica com clareza e razão, enquanto os que declaram viver por fé tomam duas posturas distintas; ignoram o fato ou mistificam o fato para que ele encaixe apertadinho em sua fé.

Entre estudos apologéticos acalorados e sem razão e frases crentes decoradas o mundo sofre e o homem continua confuso em sua fé e sem ter razão e conhecimento de si e do mundo que o cerca.

Eu não quero defender o “ateísmo-religiofobista” e claro eu não defendo a ciência como algo primordial na vida, mas sim necessário.

E também não posso dizer que um ateu é todo razão e é superior a qualquer crente e que a ciência tem todas as respostas, assim eu cairia em um fundamentalismo cético que me emputece.
Dá para crer e pensar considerando tudo e indo a todas as fontes de pensamento e ciência sem precisar ter medo de algo.

É um pouco engraçado ver gente torcendo o nariz para a ciência enquanto não abre mão da sua TV de Plasma, Aspirina e outras comodidades que os cientistas trouxeram para o nosso dia-a-dia.

Nunca vi a razão (ciência) querer ou se colocar para acabar com a fé de alguém. A razão quebra o dogmatismo, atraso, superstição e intolerância e isso deveriamos tomar para nós não como ato de descoberta científica e sim como prática cristã diária.

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